ANO: 26 | Nº: 6555

Fernando Risch

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Escritor
07/02/2020 Fernando Risch (Opinião)

Democracia em Vertigem acima de todos


Lembro-me bem. Eu, nos meus 14 anos, ufanista frente à TV, assistindo a cerimônia do Oscar. Anos antes, bem mais novo, havia torcido por Fernanda Montenegro em Central do Brasil, me decepcionando com o resultado não esperado. Mas neste ano específico de minha pré-adolescência, 2004, criei novas expectativas com Cidade de Deus.

No canal em que eu assistia, provavelmente a Globo, Walter Salles, bilionário diretor brasileiro e membro da Academia, comentava. Eu não entendia nada, como pouco devo entender agora. No meu fanatismo, eu era Brasil acima de tudo. O filme brasileiro tinha quatro indicações: Melhor Fotografia, com César Charlone; Melhor Edição, com Daniel Rezende; Melhor Roteiro Adaptado, com Bráulio Mantovani; e Melhor Diretor, com Fernando Meirelles.

A expectativa era alta. O primeiro Oscar brasileiro poderia estar próximo, tínhamos quatro chances. No meu sentimento pós-Penta, Cidade de Deus era o Brasil e Fernando Meirelles o meu Ronaldo. Mas tudo bem se o gol do título viesse com a edição do Daniel Rezende, o que importava era levantar a taça.

As decepções foram aparecendo uma a uma, em competições contra coisas do tipo Senhor dos Anéis e o Retorno do Rei. Mas eu acreditava, seguia na torcida, mesmo que fosse Real Madrid versus XV de Piracicaba. Então chegou a hora do Oscar de direção, meu Ronaldo Meirelles concorria contra apenas Clint Eastwood, Peter Jackson, Sofia Coppola e Peter Wier. Tensão no ambiente, torcida ululante na transmissão, o narrador passa a bola pra Walter Salles e ele chuta pro gol num riso sincero:

- Estamos na torcida, mas não vai dar, não.

Esmoreci. E não deu, não. Peter Jackson e seu terceiro Senhor dos Anéis levou a estatueta. Qual é a desse Walter Salles, me perguntei, está torcendo contra? Nutri alguns anos de antipatia por ele e não assisti Diários de Motocicleta por causa disso. Demorei a amadurecer para compreender como as coisas funcionam, mas ainda não vi Diários de Motocicleta.

Domingo, Democracia em Vertigem é o Brasil e Petra Costa é nossa Marta, nesta final de Copa do Mundo chamada Melhor Documentário. Torcerei por esse título até o fim, apesar de muitos Walter Salles por aí estarem dizendo – com razão – que Honeyland e American Factory são os favoritos a levar a estatueta. Pouco me importa. Seguirei torcendo.

Neste Brasil pós-apocalíptico em que vivemos, pois o Apocalipse já ocorreu e só vivemos a consequência dele, me pediram muito pra não torcer contra, porque brasileiro só torce a favor do país. Pois agora preciso requisitar esta mesma coisa, porque algumas pessoas estão contra o Brasil.

Não sei o que houve. Talvez o documentário tenha ofendido alguém. Talvez o presidente, não sei. Tem gente que leva as coisas muito pro lado pessoal. Tão pessoal que chega a mandar a Secretaria de Comunicação do Governo falar mal de uma patriota no exterior buscando aquilo que o Brasil jamais conquistou, nunca antes na história deste país.

Mas isso é bobagem, coisa pequena de gente pequena. Tira-se de letra. Porque, afinal de contas, patriota é quem torce pelo o Brasil. E domingo, é Brasil acima de tudo, Democracia em Vertigem acima de todos.

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