ANO: 26 | Nº: 6577
07/02/2020 Opinião

Representatividade negra na Academia gaúcha

Foto: Reprodução JM


A busca incessante do reconhecimento pela construção do país e a cobrança por equidade têm pautado a agenda do movimento social negro brasileiro na contemporaneidade. Num país que se orgulha da miscigenação do seu povo, identificada apenas na base da pirâmide, mas que na parte superior não se encontra esta representação negra, pode ser justificada racismo institucional e estruturado de nossa sociedade.
Apesar dos avanços que têm se experimentado nos últimos anos advindo de políticas afirmativas, que possibilitou o crescimento da população negra nos cursos universitários e no mercado de trabalho no âmbito público, ainda é insignificante diante do contingente populacional de negros, que representam mais de 50% dos brasileiros.
"Sorriso Negro", composição de Adilson Barbado e Jorge Portela, tornou-se um hino da negritude na voz da imortal Dona Ivone Lara, que traduz a essência negra e suas respectivas lutas pela afirmação de uma identidade negra positiva, em contraponto ao que a sociedade brasileira estabeleceu através de seus mecanismos de manutenção de "Status Quo", explicitado por estereótipos e outros subterfúgios como fatores determinantes dos lugares de ocupação dos descendentes de africanos. Esta música representa resistência diante desse quadro.
Por isso, a necessidade de ressaltar este momento importante e histórico, que foi a ascensão do primeiro reitor negro em uma universidade pública gaúcha, que reflete um estado conservador e ainda insistentemente racista. O professor Doutor Roberlaine Ribeiro Jorge, ao assumir o cargo maior da Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Este artigo não está preocupado em dimensionar as questões inerentes à conduta humana, como ética, caráter e outros, mas aos aspectos de ruptura de estrutura racista vigentes nas relações sociais.
Num país repleto de desigualdades históricas, de construção social meritocrática, que desvaloriza valores civilizatórios das contribuições indígenas e africanas, onde a ocupação de postos hierárquicos de destaque para estes segmentos populacionais ainda é tão raro como encontrar um trevo de quatro folhas, por isso este momento é de comemoração. Pela conquista de um negro a um espaço de visibilidade acadêmica, que deve servir de inspiração para que o reitor Roberlaine Ribeiro Jorge realize um mandato que, além da excelência universitária, também articule questões de gênero e raça que devem estar contempladas nas pautas da reitoria.
O panorama das universidades gaúchas e brasileiras demonstra o quanto ainda há muito por fazer e organizar a luta nos espaços de poder. Não é possível que uma população de negras e negros considerável não se encontre representado no ápice das carreiras das instituições universitárias. Certamente, se o racismo institucionalizado for reduzido, com certeza, num futuro, não será necessário se pronunciar mais a expressão: "o primeiro negro a assumir o cargo...". E que o sorriso negro do professor Roberlaine e de outras negras e negros do meio acadêmico ascendam e se consolidem no ápice das pirâmides das academias desse país.

Prof. César Jacinto
Mestre em Ensino

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