ANO: 25 | Nº: 6458

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
08/02/2020 Marcelo Teixeira (Opinião)

Mundo sem sal

Quase todo mundo sabe, mas é sempre bom lembrar, que o consumo de pó branco pode ser fatal. Ainda que o consumo possa trazer muito prazer e satisfação – o que torna mais difícil o abandono do hábito –, ao longo do tempo ele pode trazer incontestáveis prejuízos à saúde de seus consumidores. E, o pior, é que este pó branco é nocivo em qualquer das opções oferecidas no mercado: sal, açúcar e farinha de trigo, sobretudo nas suas formas refinadas ou não integrais.
De alguns anos para cá foram lançadas campanhas visando conscientizar a população como um todo de que uma vida saudável exige uma moderação no consumo destes pós. A recomendação chegou a virar lei em 2015 no Espírito Santo e em 2016 na cidade de Belo Horizonte-MG, tentando proibir bares e restaurantes de colocar saleiros ou sachês de sal nas mesas e balcões dos estabelecimentos.
Na época o proprietário de um restaurante capixaba, fez um protesto criativo pendurando os saleiros no teto com barbantes, de forma que eles ficassem "flutuando" sobre a mesa e, assim, tentando burlar a lei que proibia que os saleiros ficassem na mesa.
Em 2017 estas normas foram consideradas inconstitucionais e os saleiros voltaram às mesas e balcões dos bares e restaurantes capixabas e mineiros. Porém, no mesmo ano, foi feito um pacto entre o Ministério da Saúde e a ABIA (Associação Brasileira de Indústria de Alimentos) visando reduzir em mais de vinte e oito toneladas a adição de sódio nos alimentos industrializados, nos cinco anos seguintes (até 2022, portanto).
No ano seguinte (2018) outro pacto entre o ministério e as indústrias traçou como meta uma redução de 144 mil toneladas de açúcar nos alimentos até 2022 também.
Sem contestar o mérito destas iniciativas que visam melhorar a saúde da população como um todo, evitando uma série de doenças relacionadas e decorrentes dos nossos péssimos hábitos alimentares, já deu para perceber que os pactos estão sendo cumpridos. Nos produtos industrializados que consumo regularmente estou sentindo mais falta de sal do que de açúcar, mas tenho percebido de uma maneira geral que os doces estão menos doces e os salgados estão mais insossos. E mais, como o sódio, além de dar gosto, também exerce importante função na conservação dos alimentos, tenho percebido, também, que, mesmo refrigerados, alguns alimentos estragam (azedam, emboloram ou mofam) mais rápido depois de abertos. Alguns chegam a estragar fechados em embalagens a vácuo.
O mais irônico, todavia, foi uma marca tradicional de guaraná que comprei que destacava no rótulo uma redução de açúcares, mas nas letras minúsculas dos ingredientes informava a adição de adoçantes artificiais para compensar, sem que o produto seja considerado "diet". O irônico é que ao deixarmos de ingerir açúcar, passamos a ingerir adoçantes que, via de regra, são considerados cancerígenos. É um caso clássico de trocar seis por meia dúzia, pois sai um produto nocivo e entra outro. Neste caso a dúvida será: qual o mais (ou menos) nocivo?
Talvez o tempo confirme que estas reduções de sódio e açúcar contribuíram para a diminuição da incidência de doenças relacionadas ao consumo destes pós, mas, inspirado na brilhante frase de Joelmir Betting ("fazer dieta é uma forma de prolongar a vida tornando-a insuportável") me atrevo a dizer que o mundo com menos sal e açúcar talvez não fique insuportável, mas certamente vai ficar muito mais sem graça e sem sabor.

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