ANO: 26 | Nº: 6557

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
08/02/2020 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Ocaso de referência sentimental


Outrora, em histórico festival de poesia moderna no Colégio Estadual, o professor novato comete a declamação de poema que, após, repete em festas familiares ou sob a insistência de raro ouvinte. Felizmente ninguém mais se encoraja em sugerir o inusitado desempenho, sepultando promissora carreira artística.
O texto de Mário Quintana narra o convívio de homem com o peixinho que ele pesca. E que vira companhia dele. No café, grave e de preto, enquanto ele saboreia a xícara de fumegante moca, lê o jornal e também acaricia o bichinho, que "silencioso e levemente melancólico tomava laranjada por um canudinho especial".
É como serei nesta crônica. Nostálgico, tristonho. Saudoso. Mas também realista. Nesta etapa que alguns sofistas abusam chamar "melhor idade" o consolo é não ter ilusões exageradas. É ver a realidade com olhos lassos, eis que o tempo da existência agora se mede mais pelo número de remédios a ingerir nas refeições que pelo calendário.
E como o escriba tem visitas sazonais nesta cidade que ama e não encontra tão assiduamente seus alunos e amigos é obrigado a desenvolver técnica de reconhecimento até agora bem-sucedida: identificar pela voz. E está melhorando no apuro, pois quando isso não é possível, seja porque a pessoa se mantenha silente ou excessivamente calva e obesa, resta outra praxe infalível: o andar. Ainda escreverei compêndio usando lições do pretérito para provar a influência genética no jeito de caminhar.
Uns saem ao pai, outras puxam às mães. Há irmãos que parecem marchar com o porte da ancestralidade. As pernas arqueadas constituirão capítulo especial. É batata, "olha lá, é cambota igual ao pai", o DNA não falha, nem precisa exame. Limitarei essa agenda sem aludir a envergaduras, ou protuberâncias, possíveis também de científicas dissertações. E de práticas veniais levadas ao confessionário. Aqui chego ao assunto.
Ainda guardo o costume de ir à missa. É verdade que não preciso mais carimbar a caderneta ou rogar ao pai que justifique a preguiça. Desde que ia com a mãe fico lá atrás no templo de 1929 erguido pelo italiano Vespignani, com suas naves e abóbodas, oceano de beleza arquitetônica e sua tijoleta virada. As famílias bajeenses colaboraram em sua construção. Contam que a imagem da Auxiliadora foi doada por minha tia Elisa Rodrigues, a quem se atribui também beneméritos auxílios para a Capela São José.
A minha geração teve a ventura de usufruir das novenas de maio e junho; das procissões e suas velas votivas; da Verônica limpando a Face; das multidões que acotovelavam bancos; do coro que flutuava vozes a que os foles juntavam sons que desembarcavam do órgão; a doce fumaça do incenso retinindo ao sabor do turíbulo; da sobrepeliz dos coroinhas; das vestes roxas que cobriam os santos chamando penitência e perdão; do púlpito de onde partiam anátemas ao fogo eterno ou cálidas palavras de conciliação divina. Pois lá de trás, meninos, eu vi.
Não eram centenas, eram poucos. Os mesmos abnegados, habituais convictos de sua religiosidade e fé. De trás assisti o vazio que queria chegar longe contra os cruzados que refugavam ausências. Que exercem a indignação pelo descaso. Que resistem ao desprezo com o elmo da crença. Que continuam, e continuam, atrevidos na convicção de seu credo. Que não almejam ser os últimos a apagar as luzes e fechar as centenárias portas que se abriram para casamentos, batizados e festas. Que aliados aos reduzidos sacerdotes ainda pelejam pela antiga glória. Que acreditam nas vocações. Que rezam para que, ao menos um dia da semana, alguém venha comprovar o que vovó, ou mamãe, fala enquanto muda o canal de uma novela para outra. Que os católicos da cidade, orgulhosos de seu passado, não aceitem que o símbolo de sua veneração não siga, por sua transcendência, o que acontece com os clubes sociais, com as entidades classistas, prédios, honras, com lideranças perdidas; e óbitos de suas instituições.
Estou ciente do que afeta essa apatia e desdém. Vive-se tempos de intolerância e polarização. Não se aceita o pensamento divergente. Ou se admite contestação. Atalha-se com rispidez qualquer argumento. Ouve-se pouco, fala-se demais. Em prol das liberdades aumentam-se as sujeições. Exageram-se as franquias. Frustra-se a solidariedade pelo recolhimento individual. Teme-se, por segurança. Encolhe-se a estima na insensibilidade. Acomoda-se no desinteresse.
Retorno ao episódio. Quando padre deu a bênção e se desloca para as saudações acabava de cumprir seu derradeiro mister. Sua ordem religiosa não tem outro para substitui-lo. Mingua de membros. Os seminários se esvaem. Precisa-se solução. No caso, veio rápida ação episcopal, e se designa outra congregação para a santa tarefa.
Na rua a pequena comunidade se abraça e conversa. No fundo da igreja ainda refulge a imagem da Virgem.
Oh, Mãe Dadivosa.

 

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