ANO: 25 | Nº: 6458

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
13/02/2020 João L. Roschildt (Opinião)

Acadêmicos de Vittar

O divórcio entre o ambiente universitário e a alta cultura é um fato. Existe uma proximidade explícita do meio acadêmico com aquilo que não presta. É como se o ambiente universitário abandonasse uma esposa dedicada, inteligente, amorosa, extremamente bela e discreta, em troca de uma acompanhante sexual desleixada, estúpida, azeda, dona de formas corporais extravagantes e bastante escandalosa.

Esse fenômeno mundial subverte a racionalidade e permite a ascensão de ideologias que buscam destruir os valores civilizatórios. As sucessivas práticas de enaltecimento da estupidez e de reconhecimento de idiotas, criaram uma atmosfera acadêmica que repele qualquer resquício de erudição.

Nas últimas semanas, duas “grandiosas” realizações universitárias ilustram bem o que foi dito. No primeiro caso, o jornalista Danilo Pedrazza virou notícia ao defender sua dissertação de mestrado na Universidade do Minho, em Braga (Portugal). Tudo porque ao longo de sua apresentação ele tirou as peças de roupa que vestia (blazer, camisa, calça, sapatênis e touca), ficando com um body de arco-íris idêntico ao que Vittar usa no clipe “Então vai”, peruca e quatro meias-calças. Sua “pesquisa”, com 250 páginas, focada nas representações artísticas e políticas daquela drag queen na mídia internacional, recebeu nota máxima da banca examinadora. A justificativa para sua “performance”, de acordo com o estudante, foi a de mostrar “como os gêneros são fluidos [...] e também chocar os portugueses”. Para quem quiser se chocar um pouco mais, o Instagram do jornalista disponibiliza uma foto dele com o body bem cavado...

Em outra situação, durante a formatura do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o formando Eduardo Rius tentou “lacrar”. Ao ser chamado para receber o diploma o jovem levantou-se e disparou em direção ao centro do palco ao som de “Parabéns” de Pabllo Vittar. Com um sapato de salto alto feminino, vermelho e envernizado, o estudante partiu para o ataque: misturando coreografias que forçam a sexualização, ergueu a beca até a cintura, mostrou seus pernões masculinos com justos cuecões dourados e dançou freneticamente. No vídeo, disponível na internet, é possível ver e ouvir gritos elogiosos e emocionados aplausos. Rius alegou que com este ato ele rompeu com as amarras dos tempos sombrios, exercendo a cidadania e que sua “performance” foi um ato político que clamou por liberdade e representatividade.

Nessa época em que qualquer um, de qualquer jeito e fazendo qualquer coisa, tem o direito a fazer uma “performance” (e se for impedido, é algum “-ismo” ou “-fobia”), fico imaginando como poderia ter sido a defesa da dissertação intitulada “Fazer banheirão: as dinâmicas das interações homoeróticas nos sanitários públicos da estação da Lapa e adjacências”, do jornalista Tedson Souza. E caso um(a) garoto(a) de programa resolva, na cerimônia de formatura, mostrar para a sociedade sua “representatividade” social, não será legítimo?

Garantir direitos e respeitabilidade não passam por “performances” toscas e desequilibradas que só são aplaudidas e endeusadas por aqueles que odeiam a sociedade em que vivem. São adquiridos pela qualidade e por condutas que não queiram “esfregar” nada na cara de ninguém. Algo que só a alta cultura pode ensinar.

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