ANO: 26 | Nº: 6588

Padre Jair da Silva

pejairs@yahoo.com.br
Pároco da Catedral
15/02/2020 Padre Jair da Silva (Opinião)

O mundo das relações


Não é preciso uma grande análise, para percebermos que uma das grandes características do nosso tempo é o individualismo. Uma das grandes marcas do nosso tempo é a mentalidade do cada um por si, cada um fechado em si, voltado unicamente para os seus interesses pessoais. Evidentemente que tudo isso reflete fortemente nas nossas relações, num mundo individualista nós passamos olhar as pessoas não como seres humanos, mas por aquilo que podemos lucrar, ganhar ou saborear com elas, isto é, como objeto de nossos interesses. Consequentemente, na medida em que a pessoa não corresponde às nossas expectativas ou não preenche mais as nossas necessidades, nós a descartamos, excluindo-a de nossas relações.
Não somos feitos para vivermos só. Mesmo que não queiramos nos relacionar com pessoa alguma, nós não sobrevivemos sozinhos. Somos dependentes uns dos outros. Um exemplo claro é o nosso próprio alimento, que só chega a nós porque passou pelas mãos de outras pessoas. A verdade é que a vida supõe relação, convivência, e na maioria dos casos não somos nós que escolhemos com quem conviver. O fato de não escolhermos com quem, não significa que não podemos e devemos escolher como conviver e como lidar com o outro. Se, também, não podemos escolher como a outra pessoa vai nos tratar, nós sempre podemos escolher como tratá-la. No mundo das relações supõe afetar e ser afetado pelo outro. Toda pessoa com quem convivemos nos afeta, isto é, provoca em nós sentimentos ou de acolhida, ou de rejeição, ou de aproximação, ou de afastamento.
Outra característica do nosso tempo é a infantilização das emoções. Muitas das nossas atitudes não parecem de pessoas adultas e racionais, agimos como crianças que fazem birra, se jogam no chão ou ficam agressivas sempre que suas vontades não são satisfeitas. Muitas vezes a nossa consciência é substituída unicamente pelo critério "isso me satisfaz", não nos dando ao trabalho de questionar: "isso me convém?", "isso convém ao meu relacionamento, ao meu estado de vida, à minha salvação?". Não existe crescimento sem poda. Triste é aquele que nunca diz não a si mesmo, pois quem nunca diz não a si mesmo e aos seus desejos, quem nunca se nega uma experiência de prazer, quem sempre quer ganhar tudo, experimentar tudo, será sempre uma pessoa emocionalmente infantilizada, e uma pessoa emocionalmente infantilizada é alguém incapaz de fidelidade, incapaz de constância e de seriedade, incapaz de administrar-se, incapaz de amadurecer num relacionamento.
"Se o teu olho direito é para ti ocasião de pecado, arranca-o e joga-o para longe de ti! De fato, é melhor perder um de teus membros, do que todo o teu corpo ser jogado no inferno" (Mt 5,29). Os nossos olhos têm uma função muito importante, eles são a porta de entrada do nosso coração. Primeiro as pessoas são acolhidas pelos nossos olhos, depois é que passam para o nosso coração. Portanto, a questão é: como vemos as pessoas? Nós enxergamos os outros como seres humanos ou como objetos para o nosso consumo particular, para o nosso lucro, para o nosso interesse momentâneo? Precisamos nos ver uns aos outros como de fato somos, imagem e semelhança de Deus, pessoas que valem por aquilo que são e não por aquilo que podem servir aos interesses de alguém.
Enfim, sejamos o que nos pede o Papa Francisco, construtores de pontes e não de muros. Nos deixemos ser plenamente habitados pelo Espírito Santo. Peçamos que Ele toque nossa consciência e nosso coração, nossos pensamentos e nossos sentimentos, nossos instintos e nossos desejos, afim de vivermos relações verdadeiramente maduras e sadias.

Pe. Jair da Silva
pejairs@yahoo.com.br
(55) 997051832

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