ANO: 26 | Nº: 6527

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
15/02/2020 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

O Visconde


"Desapareceu do número dos vivos com a fortuna abalada, com os bens comprometidos, com a opulência desfeita. Mas os seus brasões de nobreza lá ficaram à porta do solar, atestando a passagem de um grande espírito. Que Deus o tenha a seu lado entre os que souberam ser úteis e generosos." - Fanfa Ribas

Seis quilômetros de estrada andada, vinte metros de largura, depois da curva, por prados, indústrias, lembranças de trilhos, casario modesto, os trabalhadores abrigados nas sombras das frondosas árvores plantadas pelo Visconde.
Talvez outros ramos generosos protegiam as brincadeiras do menino Antônio, na modesta freguesia de Castelões da Capeda, Vila de Paredes, nas proximidades do Porto, mas seguramente os seus sonhos estavam além-mar, seguro que a travessia revelaria o mundo dos navegadores os desafios da terra nova, quem sabe dizendo como Camões, dai-me uma fúria grande e sonorosa e não de agreste avena ou frauta ruda, mas de tuba canora e belicosa que o peito acende e a cor ao presto muda, dai-me igual canto aos feitos da famosa gente vossa!
O pequeno veleiro Iris sai de Portugal em 1853 e nele Antônio Nunes, olhos atentos, decisão firme, as vagas não o assustam, dias e noites, a imensidão do tudo, a fragilidade da tenra escuna, lembranças de Nuno Alvares, os argonautas brincando com as filhas de Nereu, os cíclopes invejosos.
Em Rio Grande, apenas com as letras da escola primária, emprega-se como caixeiro em armazém do Mercado Público, mas aí também havia quinteiros, hortaleiros, os agricultores lusitanos que se buscavam, por sua disciplina e dedicação, e aí o vai encontrar o comerciante Delabary, de Lavras do Sul, e já mais adulto para as lidas e contas de seu estabelecimento nas Três Vendas.
Empregado e depois sócio, Antônio Nunes de Ribeiro vai amealhando recursos e experiência e resolve, ainda na terra do ouro, estabelecer-se com a firma Alegre e Magalhães, apenas dissolvida em 1892, quando de sua mudança para Bagé, onde com Francisco Loureiro de Souza inaugura no Piraí uma sociedade de Secos e molhados denominada Magalhães e Souza, de breve existência.
Bagé o conquistara, e começa a sua trajetória de açougueiro, barraqueiro, varejista, culminando com a instalação na então Rua 3 de Fevereiro, esquina Sete, hoje Câmara de Vereadores, da firma Magalhães e Filho.
Em 1894, mesmo com os atropelos federalistas, monta um saladeiro na chácara do Cotovelo, comprando, mais tarde de Alexandre José Collares uma fração de campo, perto da Estrada de Ferro, onde, em 1897 constrói a Charqueada Santa Teresa, referente ao nome de sua esposa, Teresa Pimentel Magalhães.
A dura lida saladeril, tao bem retratada por Pedro Wayne, fora amenizada por máquinas modernas, uma usina fornecia energia para a incipiente indústria e iluminava a pequena vila, os empregados com luz, assistência médica, farmacêutica, uma vila operária, um hospital de caridade, restaurante popular, armazém e escola.
O tempo passa, e Antônio Nunes Ribeiro de Magalhães modifica os hábitos da comunidade, um teatro aparece, onde, dizem, trens especiais levavam os bajeenses para assistir ao cinematógrafo, peças e óperas. Uma capelinha para os cultos. Carpintaria e ferraria, fábrica de adubos, quase uma pequena cidade.
Em 1891 incorpora a Charqueada Industrial e para ligá-la ao estabelecimento original, quase um quilômetro implanta o Boulevard 16 de Outubro, uma avenida arborizada, servida por bondes.
As charqueadas abatem, nas safras, mais de cem mil cabeças, e pensando num frigorífico, une a K. Wilsom e Bruster, ingleses da Cia. de Navegação Mala Real e Bigstafe Bank, constituindo a Anglo Brazilian Meat Company, sede em Londres, cujo gerente aqui era Mr. Anderson, assessorado por um simpático irlândes, o Sr. Guilherme Burns. O diretor da Sociedade era Ribeiro de Magalhães, seu companheiro Rodolfo Móglia. As máquinas começavam a chegar, a de quebrar ossos, cozinhar e extrair graxas, secagem do sangue, recuperação de salmouras, a Lever sonhando aqui instalar fábrica de sabonetes e sabão, até a caldeira remetida, a duplicação da ferrovia ao porto do Rio Grande fora cogitado. Infelizmente, entre os sonhos e expectativas que a guerra de 1914 liquidou, estava o de fazer desta cidade a percursora da indústria do frio no Estado, a firma extinta, o país sem recursos para a empreitada.
Em 29 de agosto de 1906, por carta de Dom Carlos, rei de Portugal, o modesto jovem lusitano de então, recebia o título de Visconde e anos após o de Comendador da Real Ordem Militar de Nossa Senhora da Conceição na Vila Viçosa.
Tinha quase dez léguas de campo, estâncias famosas como a Carpintaria, a Fumaça, por seus campos pastoreavam mais de trinta mil bovinos, as melhores raças, chegou a edificar um prédio (onde está a Exatoria) para que fosse um banco agrícola, recebeu hóspedes famosos em Santa Teresa, para quem organiza festas populares, concertos e espetáulos no Teatro 28 de Setembro.
Nos seus 65 anos de idade e 40 de Bagé, a comunidade lhe tributou inesquecível homenagem, com edição especial do jornal da terra em papel acetinado, um álbum em prata lavrada e assinatura de outros tutelares como Emílio Guillayn, Cândido Bastos, Santos Souza, Pedro Osório, Langendock, Lybio Vinhas, Serafim Gomes, Nabuco de Gouvêa, Armando Azambuja e outros.
Hóspede de Altino Arantes, Presidente de São Paulo; jurado da Exposição de Bristol, adquirente de gado da cabanha do rei Jorge V e da Escócia.
Não foi poupado, entretanto, nem pelas desilusões, nem pelos enganos, ele que fora um filantropo, mas as suportou com dignidade, mantendo imperecível um nome e uma obra, que segundo Arnaldo Faria, se iguala a de Mauá.
Faleceu em janeiro de 1926, seis quilômetros de estrada andada, vinte metros de largura, depois da curva, por prados, indústrias, lembranças de trilhos, casario modesto, os trabalhadores abrigados nas sombras das frondosas árvores plantadas pelo Visconde Antônio Nunes de Ribeiro Magalhães.
(24.04.1984)

 

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