ANO: 26 | Nº: 6539

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
15/02/2020 Marcelo Teixeira (Opinião)

Pá de cal

Em março de 2006, neste espaço, afirmei: "...o carnaval está se transformando em mais um feriadão onde o que menos interessa é a razão do feriado e sim a oportunidade de dar uma paradinha. (...) Somente um feriadão, nada mais!"

De lá para cá, de forma lenta e gradual, esta profecia foi se confirmando ano a ano. Nos últimos tempos o "fato novo" que acelerou ainda mais o processo foi a crise econômica generalizada que inspirou prefeitos a cortarem as verbas públicas destinadas ao efêmero reinado de Momo. O que começou de forma isolada (e que, exatamente por isso, ganhou as manchetes da mídia) fez escola, encorajou outros prefeitos, recebeu aplausos dos "ruins da cabeça" e "doentes do pé" e, assim, se espraiou Brasil afora. Mais um duro golpe que nocauteou os carnavais que já respiravam por aparelhos.
Restaram algumas áreas de preservação "sambológicas" que com maior ou menor sucesso ainda conseguiram manter a tradição cultural icônica dos fevereiros tupiniquins. Em Bagé nem os tambores dos ensaios dos blocos são ouvidos na calada da noite. Os destinos planejados para a folia não são mais Caixeiral, Comercial, Flamengo, Recreativo ou SESI. Agora é Lavras, Jaguarão, Cassino ou algum lugar mais distante. Ironicamente, para quem não curte carnaval, ficar aqui passou a ser uma das melhores opções para quem quer só descansar, bem distante de instrumentos de percussão.
Talvez o carnaval volte a ser como já foi, mas não há nada que aponte nesse sentido. Pelo contrário, essa morte lenta somente confirma a tendência de extinção da festa. Resta saber quanto tempo as áreas de preservação cultural conseguirão salvaguardar esta manifestação popular tão característica do Brasil que já foi o país do futebol e que mal e parcamente consegue manter esta fama de país do carnaval.
Agora, quando tudo parecia "morto e enterrado", Belo Horizonte volta às manchetes nacionais, não por mais uma tragédia, mas sim por tentar colocar uma pá de cal sobre o carnaval. A prefeitura da capital mineira, por meio do Conselho Municipal de Igualdade Racial, publicou no Diário Oficial do município uma "Nota de orientação para práticas não racistas". Uma espécie de Código de Ética da Folia com uma série de recomendações visando evitar práticas discriminatórias nas atitudes e fantasias dos foliões, além, é claro, de cantar marchinhas politicamente incorretas como, por exemplo, "O teu cabelo não nega" e "Mulata Bossa Nova".
Entre as orientações destaco: evitar o "Blackface" (branco se pintar de negro) pois isso carrega a simbologia do apartheid; o uso de perucas "blackpower", "nêga maluca", "dreadlocks" e "touca com tranças", pois configuraria desrespeito aos símbolos da resistência negra. Mas as recomendações vão além da questão racial, pois insinua que homens vestidos de mulher, assim como fantasias de índio e de cigano, afrontam contra a dignidade das pessoas e povos representados de forma jocosa (fiquei a imaginar um carnaval não jocoso, não burlesco, enfim, algo nunca antes visto na história do Brasil, quiçá, do mundo). O texto ainda insinua que algumas destas práticas chegam a estimular o estupro e que, em vez de homenagear, apenas reafirmam a dominação sobre minorias. A propósito, o documento não faz nenhuma referência ao "golden shower".
A publicação fala por si! Qualquer comentário sobre ela pode configurar algo ainda mais reprovável do que usar fantasia no carnaval mineiro, mas, seja pela sua essência, origens ou tradição, carnaval não é o momento mais indicado para posturas e discursos politicamente corretos.
E dizer que São Paulo é que tinha a fama de túmulo do samba... Belo Horizonte acaba de reivindicar este título.

 

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