ANO: 26 | Nº: 6554
17/02/2020 Segurança

Supervisora de escola estadual de Bagé denuncia caso de injúria racial

Foto: Rochele Barbosa/Especial JM

Berenice e Mara (à direita) detalharam caso ao Jornal MINUANO
Berenice e Mara (à direita) detalharam caso ao Jornal MINUANO

Um novo caso de discriminação chega às páginas do Minuano, desta vez, registrado em um ambiente onde, teoricamente, todos deveriam estar unidos em um objetivo igual, que é a educação de crianças e jovens. A supervisora da Escola Estadual Dr. Carlos Kluwe, Mara Luci dos Santos Castro, de 46 anos, registrou, na Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento (DPPA), na semana passada, que foi vítima de uma ofensa proferida pela mãe de um aluno, em uma rede social que reúne vários pais, alunos e dirigentes escolares.

No registro, consta que a vítima foi chamada de forma desrespeitosa e pejorativa de “negrinha”, “negra”. Mara destaca que se sentiu muito ofendida. “Todos os outros, que a mãe se referiu, eram tratados pelo cargo e nome. E eu, para minha surpresa, fui chamada de 'negrinha', foi uma falta de respeito”, relatou em entrevista exclusiva ao Jornal MINUANO.

O fato teria acontecido após uma reunião para tratar sobre uma questão envolvendo uma outra professora. A diretora da escola, Berenice Gutierres Machado Pillon, também registrou, alguns dias depois, um boletim de ocorrência na DPPA, também relatando o fato e ressaltando que foi desrespeitada enquanto servidora pública. De acordo com ela, a mãe acusada duvida de sua conduta profissional, pois, em um áudio divulgado no aplicativo Whatsapp, que chegou para toda comunidade escolar, relata que ela não está nunca em seu local de trabalho. Berenice destaca que a denunciada a procurou somente duas vezes em todo o ano, e a atendeu. “Como ela fala que eu não estou em meu local de trabalho, como se eu negligenciasse minha profissão? Eu fico no colégio 40 horas e, muitas vezes, faço mais horários. Foi uma falta de respeito com a equipe”, completou.

Em entrevista à reportagem, Mara ressalta que, no dia em que o fato ocorreu, quando recebeu o áudio com ofensas, se sentiu muito mal, ofendida e pensou em quantas pessoas passam por isso, que a sociedade é ainda muito preconceituosa. “Infelizmente, vemos nas instituições ainda poucos negros trabalhando. Na escola mesmo, são 88 funcionários nos três turnos e temos cerca de seis servidores negros. Ainda há muito a ser feito e eu me sinto na obrigação de lutar por essa questão e não deixar a impunidade vencer, pois esse tipo de situação não pode acontecer, ainda mais em um ambiente escolar”,ressalta.

A supervisora ainda destaca que pretende processar a pessoa que proferiu ofensas contra ela, pois acredita que tem que lutar sempre. “Desde a escravidão, nossa história é de lutas. Eu vou lutar para que isso não aconteça mais, pois comigo aconteceu isso agora, essa falta de respeito. E outros negros também sofrem. Me sinto vitoriosa na vida, por poder lutar contra a discriminação e preconceito”, acrescenta.

Coordenadoria de Educação repudia episódio

A titular da 13ª Coordenadoria Regional de Educação, Miriele Barbosa Rodrigues, informa que está sabendo do fato (racismo) e que o órgão repudia todo o tipo de preconceito. “Nós não somos coniventes com a situação, ficamos muito chateados. O que podemos fazer e vamos fazer? Intensificar os projetos de combate à discriminação dentro da escola, pois estamos no ano de 2020 e é inacreditável que isso ocorra ainda”, adianta.

Miriele destaca que, enquanto gestora de educação, cabe a eles fazer um trabalho com alunos e adolescentes para que isso não ocorra com essa nova geração. “Sabemos que há muitas pessoas assim, não estamos formando os pais desses alunos, e sim os jovens. E, então, vamos fazer um grande trabalho este ano de combate a todos os tipos de preconceitos, para que as pessoas entendam que qualquer tipo de discriminação nós rechaçamos. Somos solidárias à professora (supervisora) que sofreu. A mãe foi errada, talvez não tenha percebido, ou, no calor do momento, devido a uma outra questão, ela perdeu a razão. E como ela fez, iremos fazer um trabalho para que cada vez mais diminua”, finaliza.

Fatores psicológicos

A psicóloga e professora da Urcamp, Sílvia Vargas, foi procurada para avaliar o caso. “As pessoas, naturalmente, temem e rechaçam aquilo que é diferente, isso vale para qualquer situação, o novo, uma religião diferente, uma raça diferente, uma proposta diferente, uma mudança que venha de uma maneira diferente. Em geral, se criam barreiras e o preconceito é uma coisa que existe em várias esferas. A questão racial está sendo trabalhada de forma bem mais delicada, o que é necessário, porque na verdade são pessoas, seres humanos e tudo que tem vida deveria ser tratado com mesmo respeito”, destacou.

Sílvia aponta as pessoas ainda estão muito imaturas, com ideais e formações antigas. “Outra situação que se sabe é que ninguém nasce preconceituoso. As discriminações são criadas a partir do meio em que as pessoas vivem. O ambiente vai ter uma formação significativa na vida de cada indivíduo. De acordo com o espaço que eu vivo, vou aprendendo a me formar e, eventualmente, algumas pessoas querem e mudam”, salienta a profissional.

Investigação

Também procurado pela reportagem para abordar sobre o caso, o delegado regional, Luis Eduardo Benites, destacou que, em casos de injúria qualificada, o procedimento inicial é ouvir a vítima e eventuais testemunhas do fato. “O importante, para a configuração do delito, é que a haja a ofensa, querendo levar a vítima a uma situação de humilhação, em relação à raça, idade, gênero e orientação sexual”, explica.

Esses casos, ainda conforme o delegado, geram inquéritos, denúncias e ação penal. Não é somente um termo circunstanciado, destaca ele. “No caso de injúria racial, a pena pode ser de 1 a 3 anos, comprovando a prova e materialidade do crime”, completou.


 

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