ANO: 26 | Nº: 6542

Dilce Helena Alves Aguzzi

dilcehelenapsicologa@gmail.com
Psicóloga
18/02/2020 Dilce Helena Alves Aguzzi (Opinião)

As crianças e as amizades

As crianças são muito transparentes ao se relacionarem. Ao estabelecerem amizades vão demonstrando como estão entendendo o mundo, seus sentimentos, a importância dos outros e a sua própria. Esta engrenagem, aos poucos, alimenta a autoestima e autoconfiança para toda a vida. Embora este aprendizado e nivel de desenvolvimento afetivo e emocional seja evidente, nem sempre o é para os pais. Esses, não raro, se angustiam pensando que a criança deve ter mais amigos, que os conflitos entre eles devem ser resolvidos sob a ótica dos adultos, que as amizades são injustas, ou estão frustrando demais seus pequenos. Isto para citar apenas os pontos que mais aparecem numa infindável lista de adultos que esqueceram como se aprende a viver - vivendo e aprendendo a resolver os próprios conflitos.
A família deve ficar atenta à forma como seus filhos desenvolvem as amizades sim, mas menos preocupada em fazer "justiça" e mais observadora sobre o que a criança está demonstrando a respeito de sua própria maturação emocional com os relacionamentos. Ou seja, pense mais sobre o ser humano que está sendo formado em sua casa e menos no quanto precisa ser amado por todos.
A amizade na infância quando desenvolvida de modo natural, sem grandes interferências por parte dos adultos, pode favorecer o desenvolvimento de valores em falta nas esferas do convívio humano. Tais como:
-Lidar com as diferenças. Ninguém é igual a ninguém e mesmo assim todos merecem respeito.
-É impossível ser protagonista o tempo todo. O mundo não gira em torno de nossas vontades, portanto frustrar-se pode ser a única forma de aprender isso.
-Afinidade é algo que surge ao natural, existirá em relação a algumas pessoas e não em relação a outras. Aceitar isso e não confundir com preconceito ou discriminação é muito importante.
-Quando se gosta de alguém queremos ter esta pessoa por perto, mas ela não é nossa propriedade como seria um brinquedo. Ela tem vontade própria e, se não quiser nossa companhia, isto não quer dizer que não somos importantes ou que estamos sendo desrespeitados.
-Todas as ações e atitudes têm consequências, boas ou ruins. A forma como escolhemos tratar os outros é determinante em como seremos vistos e tratados por todos. Os adultos devem perceber que crianças que ainda não aprenderam esta noção refugiam-se no papel de vítima ansiando por sua interferência. Controlar-se é fundamental, afinal a frustração educa e faz crescer.
É sempre possível encontrar uma forma melhor de conviver. Se as amizades estão sendo motivo de sofrimento é mais sábio mudar as próprias atitudes rumo ao aperfeiçoamento pessoal do que mudar os outros segundo nossos critérios.

Deixe seu comentário abaixo

Outras edições

Carregando...