ANO: 25 | Nº: 6486

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
20/02/2020 João L. Roschildt (Opinião)

O sacrifício da vida

Uma das lições que um bebê explica aos seus pais é a de que o tempo não lhes pertence mais. A outra é a de que, diante do amor incondicional dessa relação, qualquer desafio será facilmente superado. Obviamente que para hedonistas e egoístas, forte tendência dos mimados pais contemporâneos, a existência de um filho subtrai tempo precioso dos prazeres e cria obstáculos intransponíveis para o fortalecimento do ego.

No início de janeiro deste ano, a atriz Michelle Williams, após receber um prêmio no Globo de Ouro, ganhou ainda mais destaque na grande mídia por conta de seu discurso progressista. Grávida, ela defendeu o direito ao aborto usando o eufemismo clássico de “escolha”, quando poderia dizer morte. Discursando para uma plateia igualmente idiotizada, e com a pretensão de atingir idiotas ao redor do mundo, Williams justificou que seu reconhecimento premiado só foi possível por ter realizado um aborto. Em outras palavras, para ela, seu valioso troféu foi resultado do descarte do ser (bastante desprezível, pelo visto) que habitava seu ventre: “Eu não seria capaz de fazer isso sem empregar o direito de escolha de uma mulher. De escolher quando ter meu filho e com quem [...]”, declarou. Sem espanto algum, e sem qualquer dose de piedade para com quem foi eliminado, a atriz recebeu inúmeros aplausos e foi ovacionada pelas grandes estrelas de Hollywood. De forma surreal, ela ainda teve o disparate de dizer que todas as mulheres deveriam agradecer a Deus (como assim?) por viverem em um país em que elas são livres para realizarem este tipo de “escolha”. Após mais aplausos, sua face gerou um sorriso que somente psicopatas poderiam produzir.

Não é preciso ser muito hábil no raciocínio para compreender que a mensagem foi clara: aquelas mulheres que possuem grandes ambições em suas carreiras, podem (e devem!) assassinar seus filhos quando desejarem. De forma explícita, é como se o sucesso não combinasse com a existência de um filho. Ou melhor, é como se a palavra “sucesso” significasse algo distinto da vida. Talvez dentro da mente tacanha dessa celebridade (e de todas que a aplaudiram), ter um filho em algumas fases da vida é sinônimo de fracasso. Exercendo o direito de ser tétrica, a grávida Williams dedicou seu troféu ao filho que assassinou.

Para ególatras, nada é mais valioso do que suas vidas particulares e filhos são como holofotes que ofuscam seus brilhos. Por isso a defesa insana de que a vida e as escolhas de uma mulher não possam ser embaraçadas pela existência de um ser altamente dependente nos primeiros estágios da vida. Nessa dinâmica, filhos são colocados na balança das atividades profissionais e ficam à mercê das vontades dos mais fortes. O “direito de escolher” não passa de uma escolha que impõe a morte como alavanca para o sucesso.

O sacrifício é a possibilidade de redenção. Nele, escolhas são feitas em prol de uma salvação moral que oferte algum sentido profundo à existência. No primitivismo cultural contemporâneo, o sacrifício da vida humana em nome de um desejo privado satisfaz a individualidade e preenche os vazios psicológicos que as frustrações pessoais criam.

Mas filhos não impedem nada. São ardorosos torcedores para o sucesso de seus pais. São a materialização da redenção para quem sacrifica seu amor por eles. E não há sucesso sem redenção.

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