ANO: 26 | Nº: 6527

José Carlos Teixeira Giorgis

jgiorgis@terra.com.br
Desembargador aposentado e escritor
21/02/2020 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Bagé raiz

Bajeenses bonitas.
Há anos, em 27 de setembro de 1950, aconteceu na confluência das ruas General Neto e Marechal Floriano, em palanque armado entre a Casa Açucena e Dois Irmãos, defronte ao Salim Kalil, um comício pela candidatura de Getúlio Vargas ao Senado. Batista Luzardo, ao discursar, conta que ainda no avião, o candidato estava apreensivo quando ao sucesso do ato e indagava como estaria o local, a que o caudilho lhe respondera: ''Bagé está tinindo, Getúlio'', frase que leva ao delírio a enorme multidão presente. A fotografia do acontecimento aponta um registro histórico inusitado. Nunca, aqui, os olhos juvenis veriam tanta gente. Também Getúlio, ao falar, pronuncia outra expressão célebre: ''Bagé é terra dos homens valentes e das mulheres belas'', o que, vaidosamente, todo conterrâneo propala com orgulho. Todavia, o saudoso Mário Nogueira Lopes, em obra sobre personalidades bajeenses, oblitera que, muito antes, seu pai Túlio Lopes, em número comemorativo ao Centenário Farroupilha da revista 'Phenix'' em 1922, expõe um flagrante da cidade, com a legenda ''Bagé, cidade dos homens valentes e mulheres bonitas'', talvez de autoria de algum dos redatores da publicação. O dito já seria tradicional, como o próprio Vargas viria a salientar.
Italianos na região.
Em discurso que pronuncia em maio de 2005 pelos 130 anos da imigração italiana, em praça pública de Dom Pedrito, a escritora e advogada Gisele Bueno Pinto relata que mais de 125 famílias de imigrantes povoaram a simpática cidade vizinha, entre elas, por ordem alfabética: Barbieri, Berruti, Brandi, Bruza, Bernardini, Canarin, Cezarini, Corsini, D'Mutti, Favalli, Firpo, Giorgis, Gallo, Guanzatti (construtor do Colégio do Horto, também da fachada e torre da Igreja Matriz) , Médici, Mingola, Moriconi, Montardo, Pacielo, Pilenghi, Postiglione, Prati, Pra-Baldi (montadora Ford e Fordison, na hoje avenida Barão de Upacaraí), Severo, Valle, a que se somaram, depois, Bolson, Bortolotto, Comin, Coradini, Camponogara, Cantarelli, Folgiarini, Gogia, Lain, Marchese, Marchesan, Menegás, Menuzzi, Moro, Rubin, Rossato, Raguzoni, Sorato, Vian, Rigo. E com a beleza de sua escrita, a saudosa poeta e contista declara que sempre todos se sentiam irmãos, ''onde as bandeiras se confundem no verde, completam-se com o azul do céu brasileiro, o amarelo de nosso ouro e o vermelho do forte sangue italiano, sob o branco da paz que nos inspira a todos''. É inegável a contribuição regional destes egressos do Piemonte e Lombardia; do Vêneto, Vicenza, Treviso e Verona; Cremona, Mântua e Bréscia; de Bérgamo e outras províncias, que com sua força laboral introduziram as grandes lavouras, com destaque para a produção arrozeira, levando o município ao destaque estadual sob olhares do Rio Santa Maria.
Dr. Cândido Gaffrée.
Em 27 de janeiro de 1948 era distribuído para o Primeiro Cartório do Foro da Comarca de Bagé o arrolamento de valores depositados na Caixa Econômica Federal em nome de Cândido Pitré Gafrée, filho do Dr. Cândido Gafrée, que havia falecido no Rio de Janeiro em 15 de junho do ano anterior. Foi advogado do inventariante o Dr. Otávio dos Santos. O compromisso e demais atos atinentes se processaram perante o Juiz Municipal Dr. Lourenço Valério Centeno, sendo escrivão o Sr. Darcy Meirelles da Luz e Oficial Ajudante sua irmã Ely Luz.
Um soneto de Juca Abero.
Entre os documentos que guardo há uma poesia enviado por Juca, de 1989, intitulada simplesmente ''Soneto''. Transcrevo os versos, com saudades.
O que morreu na cruz só nos pede um segundo/ Para pensar na dor infinita que teve/ Quando o áspero lenho o soergueu e a neve/ do desprezo virou-lhe o flanco magro e fundo. / Ele que se o quisesse o algoz iracundo/ prostrado aos próprios pés teria a um gesto breve/ deixa inerme avançar a lança que se atreve/ e abandona sem pranto o comércio do mundo./ Ó Santíssimo pai quando me dobro e rezo/ a esse filho que um dia à nossa fúria enviaste/ de tudo me liberto e só da cruz sou preso./ Cego de tanta luz, fé não há que me baste/ a haste de teu Trigo entre as mãos como aceso/ farol que me conduza ao albergue celeste.

 

Deixe seu comentário abaixo

Em tempo real

Mais notícias da edição

Outras edições

Carregando...