ANO: 26 | Nº: 6542

Fernando Risch

fegrisch@gmail.com
Escritor
21/02/2020 Fernando Risch (Opinião)

Estão chocados com o quê?


"Ela queria dar o furo a qualquer preço", disse Jair Bolsonaro aos risos sobre a jornalista Patrícia Campos Mello. A declaração machista do presidente da República, numa quebra de decoro explícita, chocou a nata do jornalismo brasileiro. A pergunta que fica é: estão chocados com o quê? Parece que os que mais precisam de liberdade, são os últimos a acordar para defendê-la.

Quando o presidente ataca de forma sexista e repugnante uma jornalista por simplesmente fazer seu trabalho, em desagrado ao mandatário, em pleno 2020, os grandes veículos resolveram se erguer em repúdio. Nada incomum e muito correto, não fosse uma surpresa quase comovente dos mesmos com Jair Bolsonaro. Estão chocados, mas só agora.

Antes, com apologia a torturador e tortura dentro da Câmara dos Deputados, a Casa do Povo, numa votação de impeachment, quando sequer era presidente, em alusão ao algoz da então presidente Dilma Rousseff quando presa pela ditadura; com declarações descabidas de amor por ditadores de extrema-direita; com ataques racistas, homofóbicos e xenófobos; com indícios de envolvimento quase fraternal com a milícia carioca; e com um rol de declarações lamentáveis de todas as estirpes possíveis, bom, aí não há pronúncia, há apenas um soluço que não lembra a indignação.

Manter-se no muro parece obrigação, mesmo quando a democracia parece ruir a cada dia. E mesmo que colapsasse à sua frente, com coturnos lustrosos ou enjambres constitucionais, se fariam de tontos para manter a neutralidade e, quem sabe, conseguir uma entrevista exclusiva com um cassetete. Mas agora, num ataque vil, covarde e nojento a uma das suas, pelo simples ato profissional, parece que a grande imprensa tocou seu teto, botando o corporativismo acima de qualquer bom senso.

Nos atos mais repugnantes e perigosos, calam-se sem censura, como se treinando para tal. Abrem o bico por uma espécie de coleguismo, de uma obrigação moral para com o diploma na parede, colocando a classe daqueles que trazem à luz o que a sociedade precisa saber para não morrer na escuridão de uma ditadura, acima da própria liberdade.

Bolsonaro elegeu a imprensa como um de seus inimigos a serem destruídos, e isso não é novidade pra ninguém. Enquanto isso, a grande mídia brinca de democracia com quem quer dizimá-la. Toleram o autoritarismo e os atropelos, até não terem mais a própria tolerância para conviverem.

Na Inglaterra, os jornais, parciais como qualquer veículo ou jornalista, estampam em suas capas explicitamente uma ordem para seus leitores votarem no partido, candidato ou proposta que se alinhe ao teor editorial do veículo. "Vote Labour" ou "Vote Torys" não é suficiente para eles. Atacam e expõem em apologias quase apoteóticas ou caóticas para com seus favoritos ou adversários. Não há mal nisso, muito pelo contrário. Não há o muro da falsa imparcialidade, que não bota o pé na ferida, que não identifica a ameaça. Há a verdade explícita sobre a vontade de cada um daqueles veículos.

No Brasil, pouco importa se o presidente quer criar um partido que flerta com o fascismo, com raízes no movimento integralista, se utilizando de cartórios por todo Brasil, com propagandas pagas clamando para que os verdadeiros patriotas se mobilizem e o ajudem nesta empreitada de pouca adesão, que, no caso, se criado, fará com que Bolsonaro, sendo "dono" da legenda, embolse uma deliciosa fatia do fundo partidário bilionário, de dinheiro público, que ele próprio aprovou. Para a grande imprensa, se o presidente tem o direito de criar um novo partido, ele deve fazê-lo, mesmo que tudo beire o absurdo, queimando a moral com uma corrupção de aparelhamento, como se este direito o eximisse de qualquer tipo de crítica ou reflexão.

Tratam como se só agora o presidente da República chegasse ao limite, como se este limiar de decoro e humanidade não tivesse sido quebrado muito antes de Bolsonaro tornar-se presidente. Em 2014, Bolsonaro disse à jornalista Manuela Borges, da Rede TV, em uma entrevista nos corredores do Congresso: "Você é bonita, por sinal", "Você é uma idiota!", "Eu tô cagando e andando pra você, tô me lixando", "Você é uma analfabeta!".

Uma jornalista da Veja assinou a seguinte coluna esta semana, sobre o ataque de Bolsonaro a Patrícia Campos Mello: "Bolsonaro flerta com falta de decoro, motivo previsto para impeachment". Onde estas pessoas estavam desde o dia 1º de janeiro de 2019, quando Bolsonaro pôs a faixa presidencial no peito?

Jair Bolsonaro não me choca mais, o que ele faz é o que eu espero que ele faça, não o contrário. O ataque à jornalista me enoja, me repugna, mas não me causa nenhuma surpresa. Enquanto alguns fingiam estar embasbacados por ouvirem aquelas palavras saírem da boca do presidente, eu falava no meu interior "E daí?". Das declarações infantis do homem eleito para liderar o país, esta não foi nem a campeã da categoria 4ª Série do Ensino Fundamental. Quem pariu que o embale. Quem subiu no muro e agora se viu estatelado no chão, que faça o mesmo.

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