ANO: 25 | Nº: 6486

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
27/02/2020 João L. Roschildt (Opinião)

As cinzas de uma geração

Um indivíduo repleto de preconceitos, ou seja, juízos prévios de valores ditados pelas boas experiências da vida e que impedem a aceitação imediata de qualquer asneira, sempre deve ouriçar os pelos do corpo quando alguém afirma que o mundo mudou. Normalmente, essa afirmação surge como justificativa para aceitar placidamente novos valores que nada mais fazem do que destruir os anteriores. Em outras palavras, é como se a sociedade tivesse chegado a um point of no return evolutivo: um caminho sem volta que faz seus críticos serem comparados a bestas deslocadas no tempo.

É muito comum ver uma adaptação da ideia de que o “mundo mudou” no caso da juventude, principalmente se o ácido crítico dos novos “maneirismos” típicos da manada juvenil contemporânea, tiver proferido seu comentário para um progressista-relativista. A resposta perpetuamente oscilará entre “são novos tempos”, “é outra juventude” ou “os jovens mudaram, não tem volta”. Talvez por serem pais relapsos que não são firmes âncoras morais para seus filhos, por covarde omissão, por estupidez ou por compartilharem ardorosamente de tais mudanças, seus defensores promovem a aceitação da nova realidade entremeados por sorrisinhos pedantes que almejam sabedoria.

De forma consciente (ou não), há um estímulo ao extermínio das boas práticas que forjaram nossa sociedade. Tais alegações de alterações irrefreáveis, no caso de pais, servem como ótimos e profícuos pretextos para, por exemplo, ofertar satisfação social sobre a falta de educação, inépcia e toda sorte de erros de seus filhos. Afinal, como animais ditados por instintos, suas crias são resultado exclusivo de mudanças comportamentais dos “novos tempos” que afetam a todos, indistintamente. Claro que a criança bem educada e instruída acaba sendo invejada por todos.

Mas é óbvio que qualquer discussão com algum boçal simpatizante da tese do “mundo mudou”, não passará de um desgaste entediante que visa comprovar a boçalidade de quem é boçal suficiente para não reconhecê-la. Talvez a melhor “arma” para desestruturar a falta de estrutura destes seres, seja o silêncio “ensurdecedor”, afinal, não se ofertará munição para que chamem seu antagonista de reacionário, obtendo aplausos públicos.

Muito do que foi dito é resultado inescapável da ideia de que o ser humano progride de forma incessante. Um rabisco mal feito do determinismo histórico marxista que nos conduziria a uma sociedade que seria uma reprodução do Paraíso na Terra. Na lógica do progresso, as mudanças que atingem a cultura de uma geração são representações que mostram os avanços da contemporaneidade. Alteram-se modelos educacionais, valores e ideias, sob a perspectiva de que é algo inescapável e bom. Vende-se a visão de que a novidade traz a boa nova civilizacional e que resta nos adaptar para evitar o perecimento. Concede-se aos imaturos e inexperientes jovens a possibilidade de guiar um mundo que eles não conhecem, sob os auspícios de idiotas e irresponsáveis adultos. No mundo contemporâneo guia-se o fracasso com maestria e rejeita-se a tradição sem moderação.

Como diria Chesterton, “minha atitude perante o progresso passou do antagonismo ao tédio. Parei, há muito tempo, de discutir com as pessoas que preferem quinta-feira à quarta-feira porque é quinta-feira”. Nada mais a ser dito. O mundo mudou.

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