ANO: 26 | Nº: 6542

Fernando Risch

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Escritor
28/02/2020 Fernando Risch (Opinião)

Impeachment ou barbárie

"Traidor da Constituição é traidor da Pátria. Conhecemos o caminho maldito. Rasgar a Constituição, trancar as portas do Parlamento, garrotear a liberdade, mandar patriotas pra cadeia, o exílio e o cemitério. Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo", disse Ulysses Guimarães, no dia 5 de outubro de 1988, no Congresso Nacional, ao proclamar a nova Constituição.

Segundo os apoiadores de Bolsonaro, o Congresso impede o presidente de governar. Estão certos. Bolsonaro não tem traquejo para o diálogo, não sabe o que faz no cargo e é incapaz de lidar com o Legislativo. Lembremos que o Congresso e o Senado, juntos, representam um dos Três Poderes e, igualmente ao presidente, foram eleitos pelo povo. Se Bolsonaro é incapaz de governar, certamente a culpa não é do Legislativo. Poder, este, que está tendo uma inacreditável boa vontade com o presidente.

Rodrigo Maia, o presidente da Câmara, interessado na aprovação das reformas econômicas propostas pelo próprio governo Bolsonaro, lida com os disparates do presidente pisando em ovos para não atritar ânimos. Nunca se viu um governo tão estapafúrdio com tanta tolerância na casa legislativa. Nesta semana, Jair Bolsonaro compartilhou um vídeo convocando a população para uma manifestação em apoio ao fechamento do Congresso.

Bolsonaro já rasgou o decoro presidencial por diversas vezes. Ele não está à altura da liturgia do cargo, é desrespeitoso e ofensivo. Não agrega, só destrói. E apesar de tudo isso ser lamentável e vergonhoso, e apesar de ser crime de responsabilidade, jamais alguém destituiria um presidente por ser mal educado. Quando Bolsonaro chama a população para ferir a democracia e fechar um dos poderes, Jair Messias Bolsonaro se torna um traidor da Constituição, que ele jurou defender. Um traidor da pátria, um falso patriota, golpista como tantas figuras baixas da história.

A partir disso, não há outra alternativa senão o impeachment, porque se o Congresso tolerar uma manifestação do próprio presidente para fechá-lo, então ultrapassamos um limite, o perigoso limiar que mata a democracia, pois testar o estado democrático de direito com quebra de decoro é uma coisa, conspirar contra a fundação republicana é bem diferente. O Congresso precisa responder, o Supremo precisa responder e todos aqueles patriotas – os verdadeiros, que amam a democracia e a pátria – devem responder.

Jair Bolsonaro tem um projeto de poder para si e sua família, um projeto que envolve a criação de um partido com tendências no fascismo italiano para embolsar uma fatia polpuda do bilionário fundo partidário, um projeto de se tornar autocrata, ditador, centralizador de poder, um projeto para destruir as liberdades individuais e aglomerar luxo e luxúrias para os seus, deixando o povo à margem do poder.

Para quem acreditou que pedalada fiscal era crime de responsabilidade passível de impeachment, o que pensar de presidente que convoca ato a favor de fechar o Congresso? É impeachment ou barbárie. Aos que gostam de ditadura, existem diversos países para vivê-la. Sugiro a sempre evocada Coreia do Norte.

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