ANO: 26 | Nº: 6557

José Carlos Teixeira Giorgis

jgiorgis@terra.com.br
Desembargador aposentado e escritor
29/02/2020 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Bagé raiz (parte 2)

Sesmarias.

Para facilitar o povoamento de nosso imenso território, depois da descoberta, os reis de Portugal concederam a Tomé de Souza a faculdade de conceder sesmarias, à semelhança de que faziam doando capitanias. O nome tem origem remota quando o soberano lusitano cedia terra aos súditos mediante o pagamento de pequena renda correspondente a um sexto dos frutos obtidos. O nome se generalizou, mesmo sem qualquer retribuição. Em geral, as sesmarias eram dadas a militares por serviços de guerra, havendo até algumas pessoas que obtiveram diversas sesmarias. Assim, a Paulo José da Silva Gama, o Barão de Bagé, foram cedidas também algumas áreas em São Gabriel; ao general Bento Ribeiro, quatorze em Alegrete e Quarai. Houve abusos, entretanto. Muitos não se contentavam em pedir sesmarias para si, mas para descendentes e até para netos ainda não nascidos. O sesmeiro era obrigado, num certo prazo, a medir a área e iniciar a cultura, mas como o país era grande, difícil era a possibilidade de fiscalização. O Rio Grande, por exemplo, foi durante anos um acampamento militar em constante luta, apossando-se os beligerantes tanto de sesmarias doadas como outros espaços livres. Com o povoamento e a valorização das terras, as divisas se extremavam, criando grande número de controvérsias, tendo o governo de intervir, normalizando a situação dos sesmeiros e dos ocupantes sem título, o que fez pelas leis 601/1850 e Decreto 1.318/1854. As posses sem títulos legítimos voltavam a herdeiros dos primeiros ocupantes ou a quem já as houvesse ocupado antes com algum título. As restantes eram medidas e passavam a integrar o patrimônio público. As frações, sem as condições legais, eram tidas como terras devolutas. Posteriormente surgiram outras legislações, quando as terras passaram ao domínio estadual.
Como se sabe, a região onde Bagé se situa, foi domínio espanhol, depois que reconstruíram o Forte de Santa Tecla, antes português, e antes fora conquistado por Pinto Bandeira em 1776. Mais tarde, com a apropriação das Missões, Patrício Corrêa da Câmara logrou expulsar novamente os castelhanos. Em 1805 esses rincões de Santa Tecla e Cavalhada, então lusitanos, foram arrendados a José Francisco Muniz Fagundes, irmão de Pedro Fagundes de Oliveira, mais tarde o primeiro gestor. Segundo Elizabeth Fagundes, em 1810 os mesmos passam por concessão a Paulo José da Silva Gama, o Barão de Bagé, a título de compensação devida à supressão de pensionamento a que o mesmo tinha direito. Em princípios de 1811, em vista de guerra intentada por Artigas no Uruguai, sob a influência de Dona Carlota Joaquina, Dom João VI determina a organização do Exército Pacificador da Banda Oriental, liderado por Dom Diogo de Souza, Capitão Geral da Província de São Pedro que envia o Marechal Manoel Marques de Souza, para se instalar aos ''pés dos Cerros de Bagé''. O militar forma um acampamento, edificando hospital e armazém. Em 17 de julho de 1811, já presente Dom Diogo, Marques de Souza parte para o Uruguai. É a data de fundação de Bagé. Mais tarde surge uma vila. O Barão de Bagé não tomara posse de suas terras, mas as arrendara para Boaventura Rodrigues Barcellos, tendo um herdeiro de Paulo Gama, mais tarde, reivindicado a medição das áreas de seu ancestral (1856). Reconhecido os direitos do sucessor, as terras fora negociadas com Pedro Rodrigues de Borba, que, então limitava com as frações de Pedro Fagundes de Oliveira. Todavia o Presidente da Província manda a Câmara Municipal demarcar 4500.000 braças quadradas para logradouro público da cidade (1869). Mais tarde há reclamações de outros interessados que haviam negociado com os herdeiros do Barão de Bagé os rincões de Santa Tecla e Cavalhada, obstadas pelo Governo Imperial que impede novos aforamentos. Em 1898, ante o receio de novas investidas, uma comissão determinada pelo Intendente José Octávio Gonçalves, constituída por Tertuliano da Silva Machado, Cândido Tavares Bastos e Francisco Ferreira Camboim Filho, conclui pela legitimidade da extensão ocupada pela cidade, aguardando-se solução favorável do Governo do Estado. Felizmente, nenhuma outra ação judicial acontece até hoje.
Exército Pacificador da Banda Oriental.
Com base em dados do Visconde de São Leopoldo, em Anais da Província, Eurico Salis informa que após passar em revista as tropas aqui sediadas, Dom Diogo segue para as zonas das Missões, a fim de conhecer uma Terceira Divisão ali a organizar-se. O Exército era composto de três mil homens e precisava usar seis mil cavalos, mil e quinhentos bois, além de cento e quarenta carros, então em parte inexistentes no momento do episódio. A Primeira Divisão era comandada por Manuel Marques de Souza e composta por um batalhão de Infantaria do Rio Grande, dois esquadrões de Cavalaria Ligeira, de quatro esquadrões da legião de São Paulo e um de milícias do Rio Grande. A Segunda Divisão, ao mando do Marechal de Campo de Infantaria Joaquim Xavier Curado, compunha-se de dois batalhões de infantes, duas baterias de artilharia montada da legião de São Paulo, do regimento de Dragões, de um esquadrão de milícias do Rio de Janeiro e de uma companhia de lanceiros de Índios Guaranís. A Terceira Divisão estaria sob o comando do Coronel João de Deus Mena Barreto e continha o regimento de Dragões, com Cavalaria, Artilharia e duzentos caçadores da legião de São Paulo e dois esquadrões das milícias de Rio Pardo. Quando os regimentos partiram de Bagé os habitantes aqui já moradores aproveitaram o arranchamento deixado para suas residências.
Aos senhores vereadores.
Encoraja-se em propor aos dignos edis desta cidade que, à maneira do que já acontece em outras, tramitem um projeto de lei para que nas placas indicativas do nome das ruas, e possivelmente também nas ainda desfalcadas, se inscreva o nome original de dita via, relembrando assim um passado que orgulha. Essa inscrição seria acrescida com outra lâmina ou insígnia criada por artistas plásticos locais, de forma a rememorar o fato relativo à denominação, se coubesse.
Assim, Rua do Portão, atual Sete de Setembro; Rua Santa Bárbara, a General Osório; Rua das Trincheiras, a Barão do Triunfo; Rua Santa Clara, a Rua General Neto; Rua Sant'Ana, a Marcílio Dias; Rua do Comércio, a Barão do Amazonas; Rua da Condessa, a Conde de Porto Alegre; Rua da Castanheira, a João Manoel; a Rua do Conde, atual General Sampaio; a Rua Alegre, a Bento Gonçalves; Rua Direita, a Ismael Soares; Rua Monteiro, a Dr. Penna; a Rua Aurora, a João Telles; a Rua de São Sebastião, a Marechal Floriano; Beco do Bordalho, a Rua Santos Souza; Rua do Imperador, a Dr. Veríssimo; Rua do Rosário, a Carlos Mangabeira; a Rua Santa Tecla, atual Félix Contreiras Rodrigues; Rua das Flores, Pedro Wayne; Rua do Pinheiro, Salgado Filho. E assim sucessivamente, entendimento que, ao depois, também se estenderia às praças (Praça dos Santos Lugares, a Duque de Caxias; Praça Voluntária da Pátria, a atual Silveira Martins; Largo do Conde, atual Rio Branco, etc).
Imagine um diálogo no passado; - Onde te encontro? Na Rua Direita, ela responde, escondendo que mora na Rua Alegre./. Onde fica a sede do Guarany? Na Rua das Trincheiras, diz ele/. Então falamos ao cair da noite na Rua Aurora./ Onde comprastes essas verduras tão frescas? Numa quitanda da Rua da Castanheira/. E de onde partem os milicianos? Da Rua das Flores./ Prometes? Sim, lá na casa da Rua Santos Lugares. Não era mais romântico que indicar os nomes e cargos de tantos militares e cidadãos ilustres, em situações, diga-se, nem sempre honoráveis?
Ruas largas. Tão largas que assombram os que com elas não estão acostumados, diz Pedro Wayne. Ruas que parecem dizer aos que chegam: temos lugar para todos, não se constranjam, venham confiantes.
Jazz Ruchiga e um baile de quinze anos.
Muitos bailes nos Clubes Comercial ou Caixeral foram alegrados pelo Jazz Ruchiga, de São Gabriel. Tratava-se de melodiosa orquestra que também era chamada para as folias carnavalescas e reuniões dançantes, comandada pelo violinista Rosário Ruchiga. O repertório era variado e moderno, samba, bolero, tango, jazz, etc. Era cantor Sílvio Mendes (Silvio Guanon), a quem Paulo Tuiuti da Silveira Camargo batizou de ''o poeta da voz'' em coluna no Correio do Sul. Silvio morou em Bagé e atuou na Rádio Cultura. Segundo o professor Jefferson Costa, num texto publicado em jornal gabrielense, em agosto de 1950, Ruchiga animou a festa de quinze anos de Julieta Gomes Mércio, ''fruto da união de duas famílias tradicionais e aristocráticas''. E que Julietinha desfilava na Sete com a imponência de rainha adulta, dirigindo uma barata conversível, com seus''cabelos esvoaçantes''. Teve ela, a rigor, três festas em um só dia. Um coquetel para as freiras, às 17 horas; outro para os padres, às 19 horas. E, finalmente, às 21 horas a grande festa para seus convidados nos salões da Associação Rural, seguida do baile sob os acordes de Ruchiga e seus músicos.
Em tempos de Clube Comercial e bailes das debutantes e da Exposição se lembram as orquestras de Waldir Calmon, Donato Raciatti, Raul de Barros, Suspiros de Espanha, Francisco Canaro, entre outras, além, especialmente, do conjunto melódico de Norberto Baldauf, que embalou muitos romances. E casamentos. Na agenda de aniversários inesquecíveis, ainda, os quinze anos de Greice Mara Martins Gomes.

Deixe seu comentário abaixo

Mais notícias da edição

Outras edições

Carregando...