ANO: 26 | Nº: 6554

Padre Jair da Silva

pejairs@yahoo.com.br
Pároco da Catedral
29/02/2020 Padre Jair da Silva (Opinião)

Fraternidade sim, violência não

A agressividade parece ser uma das características do mundo atual. Há um bombardeio de agressões de todos os lados. Todos os dias nós vemos e sentimos os efeitos da agressão, agredimos e somos agredidos. Certas atitudes nossas, parecem robustecer o que falou o filósofo inglês, Thomas Hobbes: "o homem é lobo do homem".

As pessoas estão cada vez mais respondendo as agressões com o instinto de defesa, reagem com o "olho por olho, dente por dente". É comum hoje se escutar expressões como: chega de impunidade! Chega de tolerância! Chega de fazer papel de bobo! É preciso dar o troco, pagar com a mesma moeda. No entanto, Jesus nos fala: "Não enfrenteis quem é malvado!" (Mt 5,39). "Não enfrentar" significa não revidar, não usar as mesmas armas do mal para combatê-lo. "Não enfrentar" significa não permitir que a pessoa que nos agride determine a nossa reação para com ela.
Quando Jesus nos pede para não enfrentar o malvado, Ele não está concordando com a maldade. Ele está nos dando um ensinamento de sabedoria, isto é, não devemos prolongar o mecanismo de repetição, mas cortar, interromper. Nós nos quebramos ao oferecer resistência direta a uma força contrária. Façamos com que a força contrária caia com seu próprio peso. Se ao tapa recebido nós retribuímos com outro, nós estamos iniciando um mecanismo de repetição sem fim. Por isso precisamos interromper com um gesto contrário. Não se confirma o que não se aceita e repudia. Se não concordamos com o tapa que nos deram e fazemos a mesma coisa, nós estamos assinando embaixo.
Jesus nos ensina que o mal existente dentro de nós e em nossa sociedade precisa ser combatido, mas combatido com inteligência, firmeza, determinação e sabedoria. A agressão é como uma bomba que precisa ser desarmada. Não podemos esquecer que a pessoa que nos agride e nos fere foi antes agredida e ferida por alguém. E, não se cuida de uma ferida abrindo uma outra ainda maior. A pessoa agressiva está gritando, pedindo ajuda de alguém, sua agressão é expressão de sua necessidade de ser amada.
Embora sejamos imagem e semelhança de Deus, há uma diferença muito grande entre a maneira como Deus lida com a ira e a maneira como nós lidamos. Deus sente ira, mas Ele tem "um respiro longo", isto é, Ele dialoga com o que sente e respira longamente, fazendo a Sua ira dissipar-se, ao invés de usá-la contra aquele que pecou. Nós, ao contrário, somos "pavio curto", precisamos aprender com Deus, a "respirar longamente", dissipando o nosso sentimento de ira de modo que, ao invés de agredir a pessoa que nos fez mal, tomemos a atitude de procurar corrigi-la com firmeza, mas também com mansidão.
"Sejam santos porque eu, o Senhor Deus de vocês, sou santo" (Lv 19,2). A santidade de Deus manifesta-se pela Sua misericórdia que perdoa, ao passo que em nós, a ira costuma falar alto. Deus é Santo, no sentido de ser separado da realidade profana do mundo. Se não queremos perder a nossa identidade, de sermos imagem e semelhança de Deus, precisamos aprender a nos separar da violência, da intolerância e da agressividade.
"Aprendam de mim, que sou manso e humilde de coração" (cf. Mt 11,29). Aprender de Jesus é colocar-se com abertura de coração para se tornar cada vez mais semelhante a Ele. Evidentemente que esta abertura, este desejo de semelhança a Jesus não consiste numa vida sem falhas, sem pecado ou sem retrocesso, mas numa vida que vai se abrindo diariamente à graça de Deus, de modo que a obra que Ele começou em nós possa chegar aos poucos à sua conclusão. Aprendamos, portanto, com o nosso Deus que "é indulgente, favorável, paciente, bondoso e compassivo. Não nos trata como exigem nossas faltas, nem nos pune em proporção às nossas culpas". (cf. Sl 103)

Pe. Jair da Silva
pejairs@yahoo.com.br
(55) 997051832

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