ANO: 26 | Nº: 6524
02/03/2020 Cidade

Empresário de Bagé e filha passam por transição de gênero juntos

Foto: Arquivo pessoal

Kylie, Medeiros e Selma
Kylie, Medeiros e Selma

Há pouco mais de um ano, Leonardo Medeiros deu início à transição de gênero, a fim de refletir no exterior o que já sentia, e sabia, em seu interior, desde os quatro anos. Durante as dificuldades do processo, pode contar com o apoio da filha, Kylie, e da namorada, Selma, ambas com conhecimento por experiência própria no processo.
Natural de Bagé, o designer gráfico deixou a Rainha da Fronteira há nove anos, quando Kylie ainda era criança, em busca de vida nova, tanto pessoalmente quanto profissionalmente. Atualmente, mora em Florianópolis, onde mantém uma estamparia.
Nascido há 35 anos em um corpo feminino, Medeiros conta que, desde os três ou quatro anos, já tinha consciência de que era menino. Esse sentimento, desde cedo, rendeu olhares tortos, apelidos pejorativos e bullying, tanto de familiares e amigos quanto de pessoas estranhas. "É incrível porque parece que criança não sabe o que é, o que quer, que não tem sentimento para isso. Como se o sentimento de uma criança não tivesse validade. Se as pessoas escutassem melhor as crianças, evitariam muita depressão e ansiedade", destaca.
Após 34 anos de espera, Medeiros deu início ao processo de transição de gênero em 2018. No momento, não pensa em cirurgia de redesignação sexual, mas tem o sonho de realizar mastectomia (cirurgia de remoção completa da mama). "Para mim, não é relevante (a cirurgia de redesignação sexual), não sinto necessidade de ter um pênis. Mas fazer a mastectomia é meu sonho. Se alguém quiser me ajudar com uma vaquinha para esse sonho, vai ser bem bacana também", diz ele, feliz.
Apesar de estar longe há quase uma década da Rainha da Fronteira, ainda mantém laços familiares e de amizade na cidade. E aponta a preocupação que tem com a comunidade trans da cidade natal, que não conta com um ambulatório especializado. "Quero ver se consigo ajudar, de alguma forma, em algo que possa levar saúde para a população trans da região", diz.
Transição em família
Aos 16 anos, Kylie começou a pensar na possibilidade de transacionar aos 10 anos, quando descobriu o procedimento em um programa de televisão que apresentou uma menina trans, Jazz Jennings. "Ela me disse que era igual a menina da TV, disse que se sentia uma menina quando perguntei", relembra Medeiros.
Mesmo reconhecendo os sentimentos da filha, o empresário conta que teve medo, principalmente em relação ao preconceito que Kylie sofreria. Até mesmo sua reação à ideia contou com um certo preconceito, segundo ele recorda. "Não podia julgá-la, mas tinha medo em relação a ela se vestir de menina. Tive muito medo das agressões de outras pessoas", explica.
Esse mesmo preconceito e violência ainda afetam diretamente a vida da adolescente, que ainda não conseguiu concluir o Ensino Fundamental. "Ano passado ela ia concluir, mas sofreu transfobia na escola e não conseguiu voltar. Mas vamos insistir e ela vai conseguir terminar os estudos. Ela já é e vai ser, ainda mais, uma mulher fenomenal", relata.
Agora, passando em dupla pelo processo de transição, Medeiros oferece suporte total para a filha, inclusive em relação à possibilidade de cirurgia de redesignação. "A Kylie tem disforia em relação a genitália dela e provavelmente vai fazer (o procedimento cirúrgico). Mas vamos esperar o amadurecimento, ela chegar à fase adulta para ver o que quer. Se ela optar por fazer, vai ter meu total apoio. Quero que ela se sinta bem com corpo e a alma dela", diz.
Passar pelo processo pode ser difícil, com muita carga emocional envolvida. Mas quando é em família, acaba se tornando mais leve, apesar de serem dois universos completamente diferentes. "O que a Selma e a Kylie passam é completamente diferente da minha realidade, é muito mais complexo, com hormônios diferentes. Até em relação às tratativas, já que passam a fazer parte de um mundo onde as pessoas são segregadas e não são ouvidas, muitas vezes, por causa do seu gênero", reconhece.
Medo da violência
O empresário relata que somente nas últimas duas semanas, dois assassinatos de mulheres trans foram registrados em Florianópolis, cidade onde atualmente vive. Em uma família formada por três pessoas que passam pela transição, o medo da violência contra a comunidade LGBTQIA+ é constante. "Tenho um cuidado especial com a minha namorada e com a Kylie. Tenho muito medo de perdê-las porque a violência contra a mulher trans é absurdamente alta. Quantas mortes ainda teremos que ver até que alguém tome providência contra machistas e intolerantes?", questiona.
A namorada de Medeiros, Selma Light, é uma conhecida ativista em Santa Catarina, usando sua força de representatividade e conhecimento em busca de diálogo e mudanças na consciência da população em prol da comunidade trans. Assim como Selma, Medeiros também é engajado na luta contra a transfobia. "Faço parte dessa militância, apoio em busca de respeito, liberdade, amor. As pessoas precisam entender que somos seres humanos e precisamos conviver em paz. Quer ter preconceito? Pode ter, o problema e a dor é de quem carrega isso. Eu sou livre, sou assumido, não tenho vergonha de quem eu sou. Mas as pessoas precisam ter respeito e nós tentamos mostrar a vida sem o peso do preconceito, para que as pessoas abram a mente e convivam em um mundo de paz", detalha.
Volta por cima
Apesar de hoje lidar com resiliência com o fato, Medeiros conta que a gestação da filha foi resultado de uma violência sexual. À época, além de lidar com a gravidez fruto de um estupro, ainda teve de conviver com as sequelas emocionais do episódio. "Hoje, convivo com esse assunto com muita sabedoria e consigo falar sobre isso, exponho porque faz parte de uma série de pautas importantes que devem ser debatidas. Mas por muito tempo carreguei culpa, tentei mudar minha mentalidade e me questionei em relação a sexualidade. Chorei muito, sofri com pânico e medo. As pessoas não sabem a violência absurda que é sofrer um abuso", aponta.
Apesar do trauma, Medeiros levou a gestação adiante e sempre manteve uma relação de muito amor e companheirismo com a filha, que o ajudou a construir uma vida de muita luta e momentos felizes. "Hoje me considero vencedor, um guerreiro. Tenho uma filha maravilhosa, uma namorada espetacular, luto para que a minha empresa dê certo e para minha evolução na vida financeira e pessoal, além de buscar meios para que cada vez mais pessoas se empoderem, cresçam", conclui.

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