ANO: 26 | Nº: 6527

Luiz Fernando Mainardi

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Deputado Estadual
04/03/2020 Luiz Fernando Mainardi (Opinião)

A crise que eles criaram


Desde antes do início do verão, agentes do mercado e propagandistas da grande mídia em geral passaram a divulgar a "retomada" da economia brasileira. Para todos, com as exceções conhecidas de economistas não vinculados ao capital financeiro e jornalistas especializados de fora da mídia hegemônica, o Brasil iria acabar 2019 melhor do que entrou e os ventos soprariam veloz e fortemente em direção a um crescimento sustentado no ano de 2020. As análises, tão pueris quanto falsas, não aguentaram nem mesmo até o fim da estação mais quente. Até mesmo o mais otimista dos apoiadores de Bolsonaro/Guedes e sua política de austeridade, reconhece que os indicadores estão demonstrando o contrário.
A culpa, evidentemente, já foi encontrada: o responsável pela nova paralisia real da economia é um ser invisível, mas não é a mão do mercado, é o vírus que assola a Ásia e a Europa e promete chegar nas Américas com a força de paralisar os mercados e fazer cair a economia, muito mais do que um vírus, um coronavírus. Balela. É evidente que a propagação de uma doença que exige quarentenas e que pode fechar fronteiras e regiões inteiras do planeta para o comércio há de impactar a economia mundial, mas no Brasil, os dados que indicam uma estagnação já são de antes da descoberta do coronavírus. A própria jornalista econômica do jornal Zero Hora (ao qual não se pode imputar postura oposicionista) demonstrou isso ontem (3) em sua coluna no jornal. Em uma nota intitulada "A Bolsonaro o que é de Bolsonaro" ela mostra que o número de empresas que não conseguem pagar suas dívidas alcançou um número recorde em 2019, chegando a 6,10 milhões. Diz ela: "Na economia real, o Brasil já não vinha em velocidade de cruzeiro quando foi atropelado pelo coronavírus" (Marta Sfredo - ZH - 3/3/2020 - pg 15).
Mas vejam, os indicadores que demonstram o problema da nossa economia não se resumem a este. O PIB alcançado em 2019, por exemplo, é 3% menor do que o de 2014, uma involução e tanto. Pior, se compararmos o PIB per capita, que indica uma distribuição de riqueza, ele é 7% menor do que o de 2014. Quer dizer, a economia brasileira além de cair em relação a 2014, está gerando uma riqueza mais concentrada. O aumento da extrema pobreza neste mesmo período é uma prova disso. Enquanto em 2014, o Brasil possuía 2,34% de sua população nessa condição, em 2019 já são 8,9 milhões de pessoas, ou 3,91% de todos os brasileiros.
A produção industrial também caiu neste período, representando, hoje, algo em torno de 80% do que foi em 2014. Demonstrativo desse encolhimento pode ser visto no setor do financiamento dos investimentos feitos pelo BNDES, nosso principal banco de fomento. Enquanto em 2014, o desembolso deste banco chegou a R$ 267,7 bilhões, em 2019 foi de apenas R$ 38 bilhões. Por tudo isso não apenas o desemprego se mantém nas alturas, como crescem os empregos sem carteira e os que trabalham por conta própria, gerando uma economia completamente desregulada e insegura, o que cria um ciclo vicioso de tragédias econômicas.
O desemprego elevado, o aumento do trabalho precarizado, a diminuição da renda e o medo de perder o emprego, além do aumento do endividamento fazem com que as famílias diminuam seu consumo. As empresas também não vão investir, pois estão com alta ociosidade e, mais importante, a decisão de fazer uma dívida e investir depende fundamentalmente de quanto as empresas imaginam vender da nova produção gerada pelos investimentos. Se a expectativa é de não vender suficientemente mais, o investimento não é feito, mesmo que o juro esteja baixo.
O governo federal, por sua vez, vem cortando seus gastos e não assume o papel de fomentar o crescimento. O investimento público nunca foi tão baixo. O quadro social, ambiental e educacional vem piorando constantemente. O Bolsa Família é um exemplo emblemático: o benefício teve perda real em seu valor e redução no número de beneficiários. Em 2019, o valor médio mensal do benefício foi 7% inferior ao pago em 2014. Segundo a Fundação Getúlio Vargas "É estimado que 900 mil pessoas foram desligadas do programa em 2019, acarretando no surgimento de uma fila média anual de 500 mil pessoas que deveriam estar sendo atendidas, mas ainda estão esperando. Há outras estimativas que apontam que 1 milhão de pessoas estavam na fila para serem atendidas pelo programa em 2019". O resultado disso? Entre 2014 e 2018, a renda dos 5% mais pobres no Brasil caiu 39% e, como consequência, a extrema pobreza aumentou em 67% neste período.
Outro exemplo na Saúde. Segundo o economista Marcio Pochamnn, a política do governo federal (leia-se Guedes e Bolsonaro) "retirou mais de 3 milhões de usuários dos planos privados de saúde, enquanto o SUS perdeu R$13,5 bilhões de recursos devido emenda constitucional de corte no gasto público. O resultado foi o aumento da mortalidade infantil em 2019, o retorno do sarampo e explosão da dengue".
Na prática, fica cada vez mais claro que o propósito do ajuste fiscal, do teto de gastos, da reforma trabalhista, da previdência, etc, não é recuperar o dinamismo da economia. Ao contrário, essas políticas, como se vê (não é ideologia) impactam no sentido contrário do crescimento, aumentando a pobreza e a desigualdade. Na verdade, como se sabe desde antes da sua posse, o governo Bolsonaro/Guedes querem mesmo é restabelecer um balanço de forças favorável ao grande capital financeiro (o lucro dos bancos bate recordes) e aos ricos. É por isso que em 2019 a economia brasileira segue menor que em 2014, mas os dividendos distribuídos pelos 4 maiores bancos brasileiros foram 3,4 vezes maiores.
Por isso é preciso resistir. Por isso, é preciso mudar o caminho que o Brasil passou a trilhar com os atuais governantes. E vamos fazer isso, cidade por cidade deste nosso imenso país. Em defesa do povo. Em defesa da democracia.

Líder da bancada do PT na Assembleia Legislativa

 

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