ANO: 26 | Nº: 6539

João L. Roschildt

joaoroschildt.jornalminuano@outlook.com
Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
05/03/2020 João L. Roschildt (Opinião)

A besta política

Caso seja verdade que o homem é um animal político, conforme lição do filósofo Aristóteles, também é verdade que no mundo contemporâneo sobram animais que desconhecem o que é a política. Nas democracias, em que todos são virtualmente iguais, cria-se a aura de que qualquer indivíduo está apto a proferir qualquer comentário sobre qualquer coisa, com a mesma qualidade de seu concidadão. É como se a escala de valores que diferencia as pessoas fosse paulatinamente reduzida para que todos se sentissem igualmente satisfeitos em suas incapacidades.

Nesse sentido, um boçal está no mesmo patamar de um erudito: pode falar ou escrever qualquer absurdo com a garantia de que será ovacionado pelos iguais palermas de plantão. Com o ego inflado pela igualdade, o estúpido contemporâneo julga-se acima do bem e do mal. Apoiado no relativismo, tem a convicção de que estará sempre certo e que seus críticos serão sempre tachados de intolerantes.

Há poucos dias, estive em uma aprazível hamburgueria. Um local absolutamente tranquilo, com um belo espaço ao ar livre e que permite uma harmoniosa convivência social. Na ânsia de saborear os suculentos hambúrgueres, eu e minha noiva escolhemos a primeira mesa que avistamos. Imediatamente pedimos o de costume. No exato instante em que a atendente virou de costas para buscar o que solicitamos, uma voz estridente, repleta de volteios na língua e que misturava miados com gemidos, “instalou” seu “palanque” político-analista-crítico social em uma mesa contígua. Mesmo que não estivéssemos próximos, o tom de sua voz encontraria qualquer ouvido em um raio de 50 metros (ou mais).

Falando para outras duas pessoas, que se mostravam tímidas e comedidas em suas falas, o vaidoso ser “político” em questão, iniciou, sem papas na língua, com a seguinte frase: “Todo homem é machista porque a nossa sociedade inteira é machista”. E repetiu inúmeras vezes isso, ofendendo diretamente todos os homens presentes naquele espaço, afinal, para este ilustre “sábio” pós-moderno, todos os homens agridem mulheres (fisicamente ou verbalmente), são “misóginos”, desprezam a feminilidade, desrespeitam as escolhas das mulheres e tudo o que este pacote de “machista” pode trazer. Esta genuína besta política, um asno transcendental, falava de todos os homens como se fossem coisas a serem eliminadas, apesar de ser homem e ter feito referência carinhosa, ao longo de sua conversa, a seu namorado.

Com a mesma falta de racionalidade apresentada no início de seu monólogo, ele seguiu analisando com exaltação programas televisivos (tão fúteis quanto ele) e adulando a ex-presidente Dilma Rousseff. Apesar de minha noiva e eu estarmos em outra vibe, conversando sobre nosso filho e planos em comum, éramos continuamente invadidos pelas falas explosivas deste indivíduo.

Se ele queria politizar e “esquerdizar” a noite alheia, não conseguiu. Os hambúrgueres estavam fantásticos. A minha cerveja, leve e com um sabor de aveia, era divina. Quando os disparates eram disparados, minha noiva me fulminava com um olhar incrédulo e ríamos sem parar. Quando o ouvido dela foi rasgado por uma sandice, ela simulou um soco na minha cara. Rimos. Terminamos e fomos embora. E o “baile” de um único dançarino continuou. O autêntico animal político sabe que existe local para tudo. Até mesmo para ser uma besta.

Deixe seu comentário abaixo

Outras edições

Carregando...