ANO: 26 | Nº: 6540

Viviane Becker

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Colunista social do Jornal Minuano, Viviane Becker é experiente jornalista de geral e conhecida editora do caderno de variedades Ellas.
06/03/2020 Caderno Ellas

Uma princesa no Bianchetti

 

por Gerson Luís Barreto de Oliveira
Médico nefrologista e escritor

 

Praticamente morar dentro de um restaurante fazia com que se aprendesse a observar pessoas. Toda família, em maior ou menor grau, tinha esse hábito. Ver o vai e vem de tanta gente  parecia ser a chave dos bons momentos, durante o tempo que o restaurante Esquina Bianchetti permaneceu aberto ( 1972 -1988 ). O principal era agradar aos outros, seja pelo paladar ou pela simpatia da casa.

No meu pai essa característica era inata, na mistura saudável do seu sangue italiano com o mais autêntico gaúcho vinha uma afabilidade incontestável.

Ao observar seus amigos de décadas que acorreram ao Museu Dom Diogo de Souza, em Bagé, na noite do lançamento do livro de crônicas “ A Minha Esquina “, pude mais uma vez ouvir as características que a todos encantava, a alegria e a amizade.

Uma vez só vi ele furioso com alguém fora do círculo familiar. Ele tinha suas ovelhas Corriedale e fora preterido numa exposição feira, se achando injustiçado reclamou e acabou brigando feio com um dos jurados. Para quê! Passou a noite inteira com insônia, no outro dia procurou o jurado e se desculpou pelo momento de fúria que ele achava ter sido desproporcional, só assim conseguiu relaxar e voltar a dormir bem.

Uma outra peculiaridade só os íntimos sabiam bem, era um leão de chácara para com os filhos dos amigos. Vários me contaram que ele os deixava fazer vales no bar para que depois seus pais pagassem, muitas vezes era para uma carteira de cigarro, ou um lanche para a paquera, a tudo meu pai encobria com um sorriso, pois via na inocência da juventude todas as justificativas.

Por tudo isso, e também pela propaganda de boca à boca, vários pais de outras cidades o procuravam. Os filhos vinham para estudar em Bagé e precisavam fazer as refeições em algum lugar, escolhiam o Bianchetti. Nossa família dava um nome a eles, eram os pensionistas. No final do mês os pais vinham ver os seus rebentos e pagavam as contas do mês.

Lembro de uma menina de Caçapava do Sul. Linda, como só as meninas de 16 anos conseguem ser, olhos cor de mel, cabelo preto e sedoso, corpo definindo as formas perfeitas de uma linda mulher.

O meu pai recebeu a incumbência de zelar pela menina, que moraria numa casa perto do restaurante e faria as refeições somente ao meio dia. Ao anoitecer até fechar o restaurante era povoado por inúmeros gaviões dispostos a dar razantes sobre a bela, e o pai dela lá em Caçapava não queria dissabores.

Ela chegava perto do meio dia, a mesa da nossa família almoçar era praticamente a primeira do salão, dava bom dia para minha mãe e avançava em passos lentos com olhar baixo até a sua mesa favorita, no meio do salão.

Ao sentar se revelava mais à vontade, pedia a refeição ao garçom, remexia nos livros para logo deixá-los de lado assim que chegava seu pedido.

Na primeira vez que a viu comer minha mãe soltou uma rápida exclamação: “ Essa tem mãe em casa! Olhem como maneja com maestria os talheres, parece uma princesa, não muda o garfo e a faca de mão, não apoia os cotovelos à mesa e age com naturalidade inata, realmente é bem educada. “

E todo e qualquer rapaz que chegasse à mesa e parecesse importuná-la meu pai mandava o velho garçom, “ seu “ Nero,  perguntar se ela desejava algo, e olhava firme para o descarado, se fosse mais abusado era gentilmente levado à conclusão que ali não era o local para tentar uma aproximação.

Eu na época era um guri de uns treze anos, observava aquela menina com admiração. Ela saíra de casa para estudar fora e já enfrentava o mundo, claro com o aparato que o pai dela armara para protegê-la.

Mas eis que no ano seguinte a bela surge mais linda, os olhos não estavam mais abaixados. Os hábitos à mesa continuavam principescos, mas uma mulher tomara forma, a menina fora deixada para traz.

Um cigarro era aceso com a mesma maestria que tinha com os talheres, amigos sentavam juntos e deu para perceber que seus olhos estavam mais iluminados quando um rapaz chegava, jogava o cabelo para trás satisfeita, estava namorando.

Minha mãe voltando a cabeça olhou para o meu pai e lhe disse rápido: “ agora deixa a guria em paz” e riu, meu pai balançou a cabeça e também teve que rir. Mais um ciclo a minha família observava de dentro do salão do restaurante Bianchetti.

 

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