ANO: 26 | Nº: 6588

José Carlos Teixeira Giorgis

jgiorgis@terra.com.br
Desembargador aposentado e escritor
07/03/2020 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Eron, Adão Latorre e Chico Diabo (1)

Há lugares mágicos em Bagé. Uns afirmam que os Cerros têm voltagem telúrica o que favorece o contato com os seres extraterrestres. No passado se dizia sobre a descida de um disco desgarrado, possivelmente atraído pela fumaça de churrasco efêmero. Outros, que os ventos alísios sopram brisas para temperar o amarelo do entardecer outonal. E há ainda o boato que uma cerviz serpenteia nos subterrâneos da Rua Direita e costuma banhar-se, desnuda, nas vagas calmas da Panela do Candal, retirando-se, fagueira, por uma porta misteriosa que se abre na Canhada Sapos, onde mergulha até o próximo solstício. É o que se comenta.
Palmas. Há, contudo, dois distritos em que se deposita toda a complacência e veneração. Para o signatário as Palmas, que muitos desejam mudar o nome para Eucaliptos, tal a sorte de tão sequiosas árvores, cujo deleite é sugar com sofreguidão os derradeiros sucos daquela terra sagrada. As Palmas do corajoso Camaquã, com a histórica ponte que ligava por uma balsa o município às minas do rei Pignatari. Palmas da Pedra Redonda. Das cavernas do Apertado. Da poética Coxilha das Flores, onde um dia sonhou-se edificar um rancho de madeira, com antena parabólica, um sortido de supermercado, rádio de pilha para receber avisos para a campanha; e galinhas que parissem brotos para manhãs de ovos mexidos bem salobros, ao depois, viradas em macia carne para o arroz à cabidela, enquanto com a bombacha não comprada e as alpargatas sem gasto, na cadeira de balanço, lesse obras virgens e concebesse textos que não escreveria, ouvindo o silêncio que rebatia nos paredões. Para além das Palmas o exílio, exaltara Carlos Moraes.
Ou como exclama o Dr. Pureza de Carvalho, eufórico e mão no peito, ao se deparar com as lonjuras do Arroio das Traíras: ''Cessem do sábio grego e do troiano/ as navegações grandes que fizeram/ Cale-se de Alexandre e de Trajano/ A fama das vitórias que tiveram/ que eu canto o peito ilustre palmense/ a quem Netuno e Marte obedeceram /Cesse tudo que a Musa antiga canta/ que outro valor mais alto se alevanta''. Consta que esse episódio resultou nas festejadas '' Odes'', que o boticário lusitano publicou, há anos, pela Tipografia do Povo.
Olhos D'Água do Eron. Outro lugar é mágico e plural: Olhos d'Água, território sentimental e reino de Eron Vaz Mattos que expressa sua paixão e talento em nova edição de seu ''Aqui. Memorial em Olhos D'Água''. Livro seminal. Imprescindível. Um cântico de louvor ao espaço amado. Um raro e culto ensaio etnográfico sobre a região, seu povo, seus costumes. Sua tradição e história. A gente em sua ingenuidade e pureza. Não há, para encômio, palavras mais sábias que as ditas pela Mercinha Nascimento, que identifica Eron como o catador de detalhes e essências, que nos alcança com sua larga alma: e a matéria mítica e real de que somos feitos; que reverbera o grito do gaúcho amarrado ao seu cavalo, o cachorro a lamber o olhar humano, o revoar dos pássaros tecendo ninhos, os ranchos nascendo da terra, o vento uivando longo nos verdes de veludo. Ou de Eduardo Contreiras Rodrigues que observa ser o autor conhecido pela inteligência, mas também pelo amor, instrumento usado no trabalho e que acredita enxergar na simplicidade do exórdio uma transposição do olhar azul do escritor, ''refletindo um céu de um dia de maio nesta campanha gaúcha''. E acentua que a obra fora gerada na intimidade do coração com a ambiência, com um ''aqui'' que originou o impulso que veio a esclarecer os motivos do afeto. Ou as observações de José Cypriano Nunes Vieira que aponta o livro como o relato minucioso de um tempo ido, onde se movimentam pessoas laboriosas, de vida simples, arraigadas ao amor da terra, ligadas à natureza deles, delas dependentes, mas que sabendo superar as agruras impostas pelo ambiente, usufruem as benesses oferecidas.
Atreve-se a sublinhar outro aspecto que é relevante: o pesquisador atento e acurado que Eron Vaz Mattos demonstra no louvado estudo. A comunidade o sabe um engenheiro do verso. É, sem dúvida, uma dos melhores poetas de Bagé, com especial ênfase de sua inclinação nativista. Basta a referência de sua produção reconhecida pela qualidade e gênio. Vencedor de concursos, referência entre cantadores e músicos. Presença obrigatória em antologias e discos que repercutem aqui e no exterior pela habilidade que demonstra em montar seus poemas, pela força intrínseca com que arremata a inspiração. É admirável sua capacidade de aprisionar a música que soa em sua percepção do meio. Dialoga com os pássaros, com os ruminantes, com as folhagens. É um curioso inveterado das coisas de seu mundo. Inquieto, não se tranca no exame superficial, mas aguarda, espreita, deixa a natureza responder. E depois transforma tudo em ciência e beleza poética. Cultiva a solidão como fonte contemplação e fruto.
Neste universo que o livro ampara, sinalizam-se duas personagens que integram os fastos locais, e de quem se desvelam acontecimentos originais para o escriba, leitor contumaz de muitas arengas, hoje metido em cogitações bissextas.
Refiro Chico Diabo e a Adão Latorre.
Chico Diabo. José Francisco Lacerda (1848, Camaquã- 1893, Cerro Largo, Uruguai), o Chico Diabo, é conhecido por haver lanceado na virilha a Solano Lopez, no dia primeiro de março de 1870, no Cerro Corá, o que determina o enfraquecimento e fim da Guerra com o Paraguai. Do ato, sua lança está no Museu Nacional no Rio de Janeiro. Trouxe como galardão a faca de prata que o ditador paraguaio portava e que, por coincidência, tinha as mesmas iniciais de seu nome (Francisco Lacerda/ Francisco Lopez). De origem pobre, ainda adolescente, Chico emprega-se em carniçaria de São Lourenço. Atrita-se com o patrão, quando um cachorro entra no local e se apropria de um pedaço de carne. Quis o dono puni-lo com uma surra de relho, e, em defesa, o jovem apanha uma faca, e fere de morte ao agressor. Depois foge a pé para sua casa, distante muitos quilômetros. Daí vem o apelido de ''Diabo''. Os pais o removem para a propriedade de seu parente Vicente Lacerda, aqui em Bagé. Tinha 15 anos. Quando chega aos 17 anos, em 1865, e a tropa passa por sua casa, é convidado por Joca Tavares a integrar os Voluntários da Pátria que iam para o Paraguai. No campo de luta destaca-se pela fidelidade ao chefe e por sua valentia. Dizem alguns autores que, no calor dos combates, Joca Tavares teria prometido uma fração de campo para quem abatesse a Solano Lopes. É crença de alguns. Todavia, em obra do General J.S. de Azevedo Pimentel, intitulada ''Episódios Militares'', consta que Joca Tavares houvera prometido cem libras a quem matasse Solano Lopez em combate. E se noticia que Joca, chegando a Bagé, cumprira a promessa feita em Aquidabã, ''dando em gado o que havia prometido em dinheiro''. É a versão que Eron consagra, aliada também pela tradição oral da zona, concluindo-se que Chico recebeu, na verdade, 100 vaquilhonas, cuja venda enseja a compra de área nas imediações da Encruzilhada, hoje pertencente a Francisco Lacerda, seu neto.
Ao voltar do Paraguai, Francisco casa com sua prima Izabel Vaz Lacerda com quem gera quatro filhos, Luiz, João Maria, Francisco Bino e Josefa, essa falecida aos três anos de idade. Foi capataz da Estância do Pavão, em Caçapava. Depois na Estância do Piraí, de Quinca Silva, hoje propriedade da família do Dr. Bento Vilamil Gonçalves. Em 1893, em campos de Joca Tavares, no Uruguai, falece aos 45 anos de idade, época em que já possuía economias de 90 contos de réis e negociava 8 quadras de sesmaria no lugar onde hoje se situa a Vila Malafaia. O dinheiro foi repartido entre seus herdeiros. Os restos mortais somente são recuperados pela viúva Izabel anos depois, subtraídos após pagar ela apreciável quantia a um uruguaio que afana o cadáver, reconhecido por uma cicatriz que tinha em uma das pernas. Chico Diabo está sepultado sob o piso da capela, no túmulo da família no Cemitério da Guarda, que dista 13,5 km do trevo da Avenida Santa Tecla, na estrada Bagé-Passo do Tigre. No local há uma lápide posta em 30 de outubro de 2002 pelo Núcleo de Pesquisas Históricas Tarcísio Taborda, cerimônia que acontece com a presença das netas Silvina e Josefa Lacerda.
Importa aduzir, pela coincidência das datas, que quando Chico Diabo se dirige ao Uruguai ao encontro de Joca Tavares, este ali se homiziara preparando o movimento inicial da Revolução de 1893, que detona logo com a invasão pela Carpintaria. É possível cogitar-se, pela mútua estima e confiança entre Joca e Chico, que este tenha sido chamado para se integrar na refrega gaúcha. É hipótese razoável que se sugere examinar.
(continua)

 

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