ANO: 26 | Nº: 6589

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
07/03/2020 Marcelo Teixeira (Opinião)

Primazia da forma sobre o conteúdo

O fenômeno não é novo e, apesar da idade, continua dando sinais de muita vitalidade e polivalência, ou seja, só cresce e se espraia confirmando a profecia contida no antigo slogan da Sprite que enfatizava: "Imagem é tudo, sede não é nada!". Talvez a ordem da frase esteja invertida, mas, a exemplo do que ocorre na matemática, neste caso a ordem dos fatores não altera o produto, pois destaca que a imagem, a forma ou a aparência é mais importante que o outro elemento do paralelo.

Essa percepção ficou mais clara para mim quando as antigas monografias (hoje sob a sigla genérica T.C.C. - Trabalho de Conclusão de Curso), começaram a ser obrigatórias aos concluintes dos cursos superiores.
Não demorou muito para que as famigeradas normas da A.B.N.T. (Associação Brasileira de Norma Técnicas) assumissem um infeliz protagonismo e, com ele, inúmeras divergências de interpretação e uma recorrente atualização que as afastam de uma característica elementar de qualquer norma que mereça o rótulo de "técnica". Esta atualização constante, via de regra, apenas cria uma legião de desatualizados que serão vitimados por bancas examinadoras implacáveis, muito mais preocupadas com o tamanho da margem ou da fonte ou, ainda, com a localização da referência bibliográfica, do que com o conteúdo do trabalho.
É óbvio que estou exagerando, mas não estou inventando, pois além da experiência pessoal como examinado e examinador, ainda ouço a mesma queixa de colegas e amigos de diferentes instituições de ensino, públicas e privadas.
E este fenômeno vai muito além dos TCCs! Se estendem aos currículos profissionais onde a qualificação formal pesa muito mais que critérios subjetivos como eloquência, articulação, carisma, inteligência emocional etc. Tempos atrás inúmeros professores universitários perderam o emprego somente porque não possuíam um título de pós-graduação. De nada valeu o tempo de cátedra, a excelente didática, uma boa relação com os alunos, uma admirável e rara capacidade de comunicar ou a rica e bem sucedida experiência pessoal e profissional a ser compartilhada com os alunos.
Não se trata de demonizar os qualificados, mas sim de não demonizar os não qualificados. A qualificação formal enriquece os currículos de muita gente boa e merecedora de reconhecimento científico, mas aqueles que não ostentam nenhum título de relevo, ainda que possuam habilidades e talentos comprovados e inegáveis, acabam sendo desperdiçados pelo sistema. Tão triste quanto observar as portas se abrirem para quem tem apenas uma qualificação formal, é perceber que as portas se fecham para quem, apesar de sua qualificação real, não possui uma qualificação formal. Já foi pior! Os critérios estão sendo modificados, mas ainda se percebe um império das formalidades sobre as reais qualidades.
O discurso politicamente correto também é uma variação desta primazia da forma sobre o conteúdo, oportunizando que determinadas formas de falar, de vestir ou de se portar possam merecer maior destaque negativo do que a qualidade do conteúdo ou as boas intenções de quem se manifestou. Bolsonaro e alguns de seus ministros, por exemplo, frequentemente são condenados por aquilo que ele mesmo rotulou como "caneladas". Descuidam da forma, da oportunidade, do jeito, da ênfase, mas muitas vezes o conteúdo é, essencialmente, verdadeiro ou, pelo menos, não é merecedor de algumas reações histéricas da oposição. Precisamos de mais coerência e menos hipocrisia, mais conteúdo e menos embalagem, mais profundidade e menos superficialidade.

 

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