ANO: 26 | Nº: 6590

Padre Jair da Silva

pejairs@yahoo.com.br
Pároco da Catedral
07/03/2020 Padre Jair da Silva (Opinião)

Transfigurar é preciso


O tempo é responsável para que as cores percam o brilho, a pele se torne enrugada, o vigor físico enfraqueça, os pensamentos e os movimentos fiquem mais lentos. A mudança, o envelhecimento é natural, é normal que as coisas vão se desfigurando. Porém, com a nossa fé o caminho precisa ser inverso, não o da desfiguração e sim o da transfiguração: transfigurar para amadurecer.
A passagem da transfiguração de Jesus (cf. Mt 17,1-9) nos recorda que mesmo que sejamos sujeitos a desfiguração, não podemos esquecer daquilo que é mais importante, a transfiguração. Com sua transfiguração Jesus quis revelar-nos que toda pessoa que se desfigura, que sofre, que se desgasta, que se doa para transfigurar a realidade, experimentará em si mesma a força da transfiguração. Ainda que externamente nós passemos por um processo de desfiguração, no fim de tudo resplandecerá a glória de Deus em nós, glória que por enquanto permanece guardada, escondida.
A nossa missão, portanto, é transfigurar a realidade que nos cerca, mesmo que as vezes estejamos bastante desfigurados. A Bíblia nos apresenta umas personagens que mesmo desfiguradas assumiram a missão de transfigurar toda uma realidade. Abrão é um exemplo clássico, um homem que tinha motivos para viver no desânimo, se lamentando, porque era desfigurado não só pela idade avançada, mas também pela sua condição de vida. Foi quando Deus o chamou e lhe desafiou a romper com o desânimo e com uma vida sem sentido, para caminhar com Ele rumo a uma vida cheia de sentido.
Deus se dirigiu a Abrão desta forma: "'Sai da tua terra, da tua família e da casa do teu pai, e vai para a terra que eu te vou mostrar" (Gn 12,1). Como a Palavra de Deus é sempre atual, hoje é dirigida a nós: Saia do seu desânimo, da sua passividade, do seu egoísmo, do seu mundo fechado; enxergue a vida para além dos seus interesses. Saia do seu medo, das suas reclamações, do seu pessimismo diante da desfiguração em que se encontra a realidade à sua volta.
É normal nos sentirmos muitas vezes impotentes diante das forças do mal que desfiguram a nossa realidade: a corrupção, a impunidade, a violência, a presença devastadora das drogas, o desemprego, etc. Mas Jesus nos ensina que não podemos nos calar diante das forças do mal, da desfiguração, temos que fazer valer a nossa força da transfiguração; longe de nós o silêncio, a omissão, a falta de vontade em reagir.
Jesus retirou-se para um lugar à parte, é na montanha que acontece a transfiguração. Precisamos, portanto, sermos capazes de nos recolhermos, de sairmos do nosso cotidiano e irmos a um lugar à parte. Como é importante esse lugar à parte, distante de tudo aquilo que estamos fazendo do nosso cotidiano para nos colocarmos somente na presença de Deus. Eis uma grande verdade, a oração transfigura nossa vida, a oração nos configura a Cristo, a oração nos coloca íntimos a Ele, a oração nos faz contemplar o céu já na terra. A oração antecipa as realidades futuras para o tempo presente, a oração nos abastece e nos alimenta, a oração nos refaz, muda o nosso semblante e nosso interior.
No alto da montanha Jesus disse: "Levantem-se e não tenham medo!" (Mt 17,7). Estas palavras são oportunas neste tempo de quaresma. Levantemo-nos, não nos deixemos derrubar por aqueles que gastam seus dias desfigurando a vida. Não tenhamos medo de sacrificar parte de nossa vida e de nossos interesses em favor do bem comum. Não tenhamos medo de sermos pessoas com ideias, sentimentos e atitudes transfigurados no meio de uma sociedade que sofre com a desfiguração.

Pe. Jair da Silva
pejairs@yahoo.com.br
(55) 997051832

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