ANO: 26 | Nº: 6539

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
12/03/2020 João L. Roschildt (Opinião)

Birrentos e travessos

Quando na canção “What this life for”, da banda Creed, surge o trecho de que as “almas estão perdidas, porque nunca puderam descobrir para quê serve esta vida”, a velha pergunta existencial que incomoda os seres humanos desde os primórdios reaparece de forma trovejante na voz de Scott Stapp. Afinal, questionar-se acerca da finalidade de nossa existência é algo que deveria ser absolutamente natural em indivíduos capazes de racionalidade. Assim, tentar descobrir qual o propósito que guia nossas ações ou se há algo de transcendente que dialoga com nossa realidade representa a fuga do vazio que os labirintos do materialismo podem criar.

No entanto, para o prepotente Homem contemporâneo, embrulhado pela mística do relativismo e do existencialismo tacanho, não existe investigação filosófica que possa ser mais inócua do que buscar um significado profundo para a vida. Travestidos de autossuficientes, as paródias humanas que abundam o nosso tempo julgam que o mundo deve ser uma mera expressão de suas vontades mais pueris. E os resultados podem ser vistos em várias áreas da vida.

Nos últimos anos cresce com vigor um movimento intitulado “childfree”. Originalmente pensado para abarcar pessoas que não quisessem ter filhos, o termo também serve para identificar aqueles que não querem crianças por perto. Na prática, alguns locais proíbem a circulação de crianças para preservar o ego dos “adultescentes”. Por exemplo, a Japan Airlines já identifica acentos com bebês de até dois anos para evitar que alguém compre bilhetes próximos e alguns restaurantes em diversos países do mundo não permitem a entrada de menores de 5 anos (em alguns casos, até mesmo de menores de 14 anos). Com a justificativa de que um local sem estes “terroristas mirins” é garantia de sossego e tranquilidade, o “childfree” ganha cada vez mais adeptos. Em todos os casos, é a incapacidade de compartilhar momentos com quem depende de atenção e a ideia de que a vida deve ser vivida de acordo com as estritas vontades individuais, o grande motor de seus seguidores.

Se para adultos os olhos são o espelho da alma, os pais são a “alma” de uma criança. Negar-lhes experiências que possam ofertar maturidade, subtrair-lhes momentos de convivência com adultos que consigam apresentar realidades distintas do seu seio familiar, ou impedir-lhes que enfrentem os medos públicos, significa retrair seu desenvolvimento humano. Se para os animais inferiores a simples perpetuação da espécie é o grande significado de suas existências, o dom da racionalidade e do uso complexo da linguagem ditam que não basta existir, mas sim florescer como um todo.

Os instintos naturais da procriação não são determinações sociais, mas sim imposições de nossa existência. A tolerância e a inteligência para lidar com os pequenos não é um fardo individual ou social, mas sim a abertura da janela da eternidade.

A tristeza de um existencialista é a sua existência. E o “childfree” é uma consequência direta disso, afinal, o simples compartilhamento de espaços com uma criança é a triste prova de que a vida tem um propósito que está para além de nossas vontades. Não existe birra maior do que um adulto mimado. Não há pior travessura do que negar nossa natureza. E não existe maior falta de limites do que acreditar que a existência se esgota em si próprio.

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