ANO: 26 | Nº: 6542
13/03/2020 Caderno Ellas

ALMOCE SOZINHA sempre que tiver vontade!

Foto: Divulgação

por Aline Fontoura de Leon
Escritora
 

 

Percebo, em um restaurante da cidade, mulheres almoçando sozinhas e, por um momento, dou-me conta de que tão simples gesto há algum tempo era raro de se ver. Não era “bem visto” uma mulher chegar desacompanhada em um lugar público. E o mais incrível é pensar que, não tão longe assim, não tinham – as mulheres - sequer direito ao voto e dependiam da autorização dos homens para realizarem as mais básicas atividades diárias. Por consequência, não conheciam o significado da palavra desejo/vontade. Eram eles que detinham o poder e a elas cabia aceitar.

Comecei o ano lendo “Mulheres não são chatas, mulheres estão exaustas” de Ruth Manus, no qual ela faz uma reflexão do comportamento feminino dentro de uma sociedade ainda machista. O mundo realmente mudou, ainda que possamos nos deparar com algumas atrocidades, como o número da violência doméstica que cresce assustadoramente, é preciso admitir que estamos mais fortalecidas e temos a possibilidade de decidir o nosso destino (pelo menos algumas de nós). Claro, há muito a fazer, até porque a liberdade passa, necessariamente, pela independência econômica - o que ainda não foi alcançada pela totalidade das mulheres.

O importante é a consciência de que é preciso estarmos atentas para que possamos continuar evoluindo e ajudando outras mulheres a se libertarem. A verdade é que muitas são as armadilhas e que se fazem necessárias ações no sentido de orientar as vítimas de uma comunidade que se acostumou a perpetuar a supremacia masculina. Sempre penso que uma das violências mais veladas a que fomos acostumadas diz respeito a algumas características impostas como sendo do gênero feminino. Somos penalizadas por essa ideia nefasta da perfeição a que, muitas vezes, fomos levadas a acreditar que é possível e que cabe a nós fazermos esse conceito dar certo. Acredito que, em razão disso, surge a chamada exaustão emocional da qual se faz urgente nos livrarmos.

Mas, para que aconteça, são necessárias algumas reflexões. A noção de que amadurecemos antes dos homens... a quem privilegia? Será mesmo que isso condiz com a verdade ou é algo criado para que assumamos mais responsabilidades? Dos meninos não se exige muito, porém, das meninas, desde muito cedo, é exigido “um bom comportamento”. Outro conceito que por muito tempo tenho ouvido é de que mulheres conseguem fazer várias coisas ao mesmo tempo, enquanto homens só conseguem se concentrar em uma ação de cada vez. Será mesmo? Isso também serve para que tenhamos a falsa ideia de que somos nós que devemos assumir mais tarefas. Afinal é uma questão “biológica”! Só que não...

Além de tudo, ainda é preciso aliar as vidas profissional e doméstica, pois a maior parte dos deveres para com a casa e filhos é da mulher. Mais recentemente é que os homens começaram a refletir sobre essa realidade e alguns já estão dividindo as responsabilidades (mas não são todos, ainda são poucos, eu diria). Não queremos ajuda e sim divisão. E sobre esse assunto é preciso falar, falar e falar. Acredito que a transformação só é possível se mostrarmos a força que temos por meio de atitudes que façam a diferença.

É importante nos cobrarmos menos e percebermos o que é produto da nossa vontade e o que foi incorporado por um contexto no qual eram necessárias as regras que diminuíssem o poder feminino. Não tente ser perfeita, solte as rédeas do jogo e aproveite o melhor. Seja senhora de seus desejos. Não tem o corpo ideal? E quem se importa com isso? Quem disse que é preciso seguir padrões inalcançáveis para ser feliz? Seja autêntica e assuma o corpo que tem. Não quer ser mãe? Lembre-se de que nem todas as mulheres nasceram para a maternidade e está tudo bem. Quer envelhecer? Não precisa pedir permissão, e nem se sentir fora dos padrões porque não se utiliza dos “benefícios” da ciência. Não sabe cozinhar? Ótimo! Procure o restaurante mais próximo e aproveite. Terminou o dia sem realizar tudo a que se propôs? Você não é um robô! Amanhã, se der, você termina. Não encontrou o príncipe encantado? Sinto muito acabar com suas expectativas: ele não existe! Não tem companhia para sair? Vá sozinha e faça um brinde por sua coragem – tim tim.

O que você realmente deve fazer é colocar-se em primeiro lugar na lista de prioridades, não ser carrasco de si mesma, fazer o que for possível e nunca mais culpar-se por aquilo que “não conseguiu”. Não há prêmio ou troféu no final do arco-íris. E que bom! Não é preciso competir com ninguém. Lembre-se: sua vida só você pode vivê-la, ninguém mais. Portanto, ouça a sua intuição: ela sempre estará do seu lado. Elimine velhas crenças de supermulheres e se permita ser alguém possível. Não esqueça de, sempre, estar atenta, não somente por você, mas por todas que ainda necessitam de ajuda - estenda a mão sempre que alguma delas precisar. Continue firme em seus propósitos. Ensine isso a suas filhas e netas (e, também, aos filhos e netos) e todas as próximas gerações agradecerão seu legado.

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