ANO: 26 | Nº: 6540

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
14/03/2020 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Eron, Adão Latorre e Chico Diabo (2)


Em outubro de 1983, sob a liderança de Tarcísio Taborda, a Fundação mantenedora da jovem URCAMP promove o I Simpósio Fontes para a História da Revolução de 1893, que seria seguido por mais dois, realizados em outubro de 1990 e abril de 1993, trazendo a Bagé seleto número de historiadores e pesquisadores de diversos Estados que trouxeram importantes informações sobre o episódio, e inteiramente originais. As palestras foram registradas em três obras que estão a merecer republicação pela Universidade, súplica que o cronista costumeiramente recebe em Porto Alegre.

Adão Latorre. E, como era natural, muitos dos conferencistas se debruçam sobre a degola do Rio Negro e a personalidade de Adão Latorre, assuntos cuidados até por autores estrangeiros e pela escrita criativa de ficcionistas. Anos antes do conclave o médico Nicanor Letti escrevera no Correio do Povo texto clássico e vastamente reproduzido, sobre a técnica da degola e os esgarres do degolado, de onde repercutiria a fama da gravata colorada. Chamava atenção que um negro uruguaio houvesse obtido tanta confiança dos líderes federalistas e tamanha liderança até mesmo sobre combatentes oriundos de famílias tradicionais, descobrindo-se que o mesmo nascera em Cerro Chato, Departamento de Rivera, ano de 1835, vindo a trabalhar em 1880 em campos do coronel Joca Tavares como peão, chegando a capataz e ao posto de tenente-coronel das hostes maragatas, mercê de sua experiência militar no Uruguai.

Há muitas obras sobre os acontecimentos do Rio Negro e recentes sobre Adão Latorre, todas buscando desvelar os fatos duvidosos, os exageros derivados da paixão política, não pairando dúvidas de que alguns momentos devem ser remetidos para o imaginário popular, até pelo exagero de conclusões que submergem perante o raciocínio médio.

E, como costume, muitos relatos vêm dos vencedores que habitualmente superlativam suas ações. Júlio de Castilhos, em ofício aos coronéis Artur Oscar, Mena Barreto e Elias Amaro, fala que “do inimigo ficaram no campo 200 mortos, mais ou menos, contando os que, em grande número foram no mato exalar o último suspiro”; Germano Hasslocher fala num panfleto sobre “quadro sinistro da degolação” Jorge Reis refere oficiais mortos após a rendição e, entre eles, “muitos vencidos”. Eurico Salis debita as mortes como a vingança contra as tropas do Coronel Manoel Pedroso que, antes, andara pela propriedade dos Tavares caçando pessoas, degolando vacas, cavalos e ovelhas. Aprisionados, foram conduzidos para o acampamento do Rio Negro, e poucos dias antes da rendição, degolados junto aos trilhos da estrada de ferro. Os diálogos entre Latorre e Pedroso, antes que esse fosse morto pela faca de Adão, passaram às páginas de romances e manuais. Pedro Wayne, no antológico conto sobre a Lagoa da Música, trata da hecatombe. Eron Vaz Mattos colheu, na história oral, que Pedroso também violara familiares de Adão, motivo por que este apenas enfileirou, para a degola, os que tivessem participado, especificamente, daquele assassinato.

Como é sabido, na chacina do Boi Preto, em 1894, as forças de Fermino de Paula, deram o troco, degolando, agora, “ 370 maragatos”, em lotes de 10 a 20, “de distância a distância” em outro exagero histórico, preservados apenas “50 moços”. Os cadáveres foram vistos por Ângelo Dourado, que ali passa com as tropas de Gumercindo Saraiva, “um monte de ossos humanos”, homens que haviam se escondido num capão e, surpreendidos, foram um a um mortos. E não se imagine que as degolas cessam com a paz entre os legalistas e os maragatos, pois anos após, ficam notórios os atos vingativos de João Francisco, cognominado a Hiena do Caty, além de Bernardino Motta e Leonel Rocha, segundo livro feito com depoimentos de familiares das vítimas ao jornal Echo do Sul, então editado em Rivera.

A morte trágica de Tarcísio Taborda trouxe outro dano histórico, pois o grande historiador desenvolvia conclusões, baseadas em pesquisas em registros do obituário regional, sobre o verdadeiro número de pessoas inumadas na época do combate do Rio Negro e que, consoante dizia, não excediam a algumas dezenas, principalmente porque não era crível alguém, numa madrugada, degolar sozinho tal número de vítimas.

Como diz Tarcísio, “para degolar tanta gente haveria necessidade de muitas facas, ou da presença de um hábil e célere amolador”. E alude o historiador que depois de “um combate com duração superior a 36 horas, em que os republicanos estavam entrincheirados, se defendendo de sucessivas cargas de Cavalaria federalista, a perda de 333 (trezentas e trinta e três) pessoas é lógica, embora seja certo que nesse total muitos foram degolados. As partes oficiais arrolam mais de duzentos republicanos mortos em combate, assim como mais de uma centena de federalistas. Mas dentre os republicanos, especialmente das forças de Piratini e Canguçu, gente de Pedroso e Motta, houve degola cujos centenários são atribuição da imprensa republicana contemporânea”.

Registre-se, ainda, que o próprio Joca Tavares anota que libertaram muitos oficiais, dados como mortos...Tarcísio pesquisou nos cartórios de Canguçu e Piratini, e expressa, com propriedade, que se tivessem sido mortos tantos combatentes daquelas cidades, teria desaparecido uma geração inteira das mesmas, o que as estatísticas não refletiam. Daí muitos pesquisadores atuais prefiram, quando tratam de alguns aspectos do combate do Rio Negro ou da vida de Adão Latorre, sublinhar que algo do que se propala deve ser considerado como verdadeiro “mito”.

Latorre seria morto no Combate de Santa Maria Chico, no Passo da Ferraria, município de Dom Pedrito, durante a Revolução de 1923. Recente livro do jornalista Nilson Mariano aventa a hipótese de que o tiro fatal teria sido disparado por um irmão de Manoel Pedroso. Esse autor narra algo que Eron Vaz Mattos também recolhera no ambiente dos Olhos D`Água: Latorre fora um bom chefe de família, um cidadão pacífico no meio doméstico; pedia aos filhos que não se metessem em confusões e evitassem brigas; proibia os filhos de caçarem passarinhos, pois se visse um bodoque cortava as tiras de borracha com sua faca sempre afiada. Lembra Mariano, ainda, que Adão combatera com os blancos de Aparício Saraiva, no Uruguai.

Outra importante inferência na obra de Eron está na transcrição do testamento de Adão Latorre, encontrado pelo palmense Cândido Pires de Oliveira, no Livro dos Contratos nº4, do 8º Distrito desta cidade. Declara o instrumento que Adão, não tendo herdeiros necessários, reconhece como filhos naturais os nascidos de Maria Francisca Nunes, então ali já falecida, nominados de João e Nicamoza, ambos uruguaios; e que deixava oito braças de sesmaria neste município e a casa para Josefina Machado, companheira com quem residia, que limitam com a propriedade de Gaudêncio Furtado, o testamenteiro, e a estrada real Bagé- Camaquã. O ato data de 27 de setembro de 1922.

Certa tarde do Dia de Finados, Tarcísio e Neusa miravam, lá do espaço onde está o Forte de Santa Tecla, o vasto e belo panorama que se divisa até Aceguá. Com o binóculo, Tarcísio teve despertada a curiosidade por um grupo que visitava um túmulo bastante escondido pela vegetação. Desce até lá: era o túmulo de Adão Latorre, no Cemitério dos Anjos, que fica 3,5 km do trecho de Santa Tecla, estrada Bagé- Passo do Tigre, lugar denominado “Quebra-Queixo”. Segundo Eron confidenciou, o sepulcro está abandonado e Vaz Mattos, entristecido com o fato, desenvolve ações junto a autoridades, entidades ou pessoas, para a recuperação deste lugar que abriga os restos de pessoa que teve relevância em nossa história.

Fonte: Aqui. Memorial em Olhos D`Água, de Eron Vaz Mattos. 2e, ampliada. Porto Alegre: Evangraf, 2019. Outras referências pertencem a obras do acervo do cronista.    

 

 

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