ANO: 26 | Nº: 6495

Marcelo Teixeira

marceloct@ymail.com
Advogado e professor universitário - Urcamp
14/03/2020 Marcelo Teixeira (Opinião)

Me dê motivo

Quem vivenciou os anos 80 dificilmente não lembrará do título acima, que batizou um dos maiores (e últimos) sucessos na voz de Tim Maia. Por destacar o trecho mais repetido e marcante do refrão, ficou especialmente inesquecível para toda uma geração.

Todavia, para quem não teve o privilégio de apreciar esse clássico da música pop/romântica nacional, a letra, como indica o título, era um lamento de alguém querendo descobrir as razões do seu par querer romper um relacionamento romântico.

Por conta de nossa racionalidade, acreditamos que todo e qualquer ação, omissão, decisão ou palavra humana é antecedida ou acompanhada de uma razão ou motivação, sobretudo quando ela procede de outra pessoa.

Buscar motivos, neste contexto, parece se tratar de um cacoete racional diante da incompreensão do casual, do impacto do acidental ou da surpresa com o comportamento daqueles que julgávamos conhecer. Mas o mais engraçado é que enquanto ficamos gastando tempo e neurônios nessa busca inglória, esquecemos que nós mesmos, muitas vezes, agimos sem pensar, seja pela falta de tempo para refletir sobre o próximo passo que daremos (ou não), seja pela falta de subsídios para tanto. Ora, se, eventualmente, nem a gente sabe porque faz certas coisas, por que queremos encontrar razões ou motivações nas condutas alheias? Convenhamos, é muita pretensão de nossa parte!

Alguns casos de depressão talvez sejam evidências de que a nossa própria ausência de motivos pode chegar a níveis torturantes. Choro sem motivo, angústia sem motivo, insônia sem motivo, desalento sem motivo, enfim, uma prisão sem grades, uma anestesia sem drogas, um desânimo acachapante e incontornável. E a tortura pode estar exatamente nessa ausência de motivos, pois o deprimido é capaz de compreender seu distúrbio, ainda que não consiga precisar as causas.

Para piorar, esta ausência de motivo parece ser, também, a responsável pela reação de muitos à depressão alheia, no sentido de subestimar ou até de duvidar da gravidade do caso. Sem falar naquela simplificação de que depressão seria apenas "excesso de passado" em oposição à ansiedade que seria "excesso de futuro".

É desnecessário repetir que depressão é coisa séria, mas a dificuldade em identificar suas causas é suficiente para ilustrar que a ausência de motivos é muito mais comum do que pensam aqueles que acham que toda ação ou comportamento humano tem motivo.

Resumindo e finalizando, buscar, solicitar ou exigir motivos dos outros, tem grande chance de não servir para nada visto que, se o motivo dado não coincidir com o motivo esperado, quem se explica não convence, confirmando aquela máxima da sabedoria popular que recomenda que a gente não se explique visto que "os amigos não precisam e os inimigos não acreditam". Neste mesmo sentido José Saramago sentenciou genialmente: "De que adianta falar de motivos? Às vezes basta um só. Às vezes, nem juntando todos!"

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