ANO: 26 | Nº: 6539

Fernando Risch

fegrisch@gmail.com
Escritor
20/03/2020 Fernando Risch (Opinião)

Precisamos exagerar

 

Há uma semana eu não lavava as mãos com frequência e não usava álcool gel. O coronavírus era apenas uma tragédia distante, longe e inalcançável. Hoje, temos essa expectativa. Vai ou não vai acontecer conosco? Estamos ou não estamos no risco? E todas as perguntas para isso se tornam novas dúvidas. Estaríamos nós, bageenses, exagerando ou despreocupados demais? Não há resposta para o que não se sabe.

Escrevo este texto na quinta-feira e pela velocidade que as coisas evoluem, talvez já tenhamos respostas para as perguntas acima, ou talvez sigamos na dúvida pelo porvir, sem entender ao certo como proceder. Estaríamos nós fazendo o certo? Até o dia de hoje, quando estas linhas são escritas, eu ainda corria na rua. Sozinho, é claro, tentando não me aproximar muito das pessoas. Estaria eu falhando na minha conduta? Não sei.

O que eu sei é que precisamos exagerar, pecar pelo excesso. Para que daqui algumas semanas ou meses possamos olhar pra trás, com ótimos resultados, e nos perguntarmos: será que não exageramos? Ainda assim, teríamos nossas vidas normais de novo, pelos menos para a maioria.

Quando o trabalho é bem feito, parece que ele não era necessário. Triste é se no futuro dermos de ombros, a justificar mortes com dados de pacientes saudáveis que talvez aliviem nossa consciência frente à tragédia. "Ah, ele tinha asma? Então já ia morrer em algum momento mesmo, corona foi só um detalhe". Ou digamos, sem pudor, que fizemos tudo aquilo que poderia ser feito, mesmo sabendo se tratar de uma preguiçosa mentira.

Basta uma pessoa para contaminar toda uma população. Um ato irresponsável não coloca em risco apenas o irresponsável, mas o coletivo inteiro. Não há testes suficientes e muito menos leitos e respiradores. Nunca é demais. Exagerem. Sem confundir seriedade com pânico. Não há razão para histeria. Se for possível, fiquem em casa e evitem aglomerações. E nunca esqueçam que vidas vêm antes do dinheiro. Vão-se os anéis, ficam os dedos, sempre disse minha mãe. Os prejuízos para superarmos isso agora não serão nem comparados com os possíveis frente a um colapso mais à frente, e isso não será exclusividade de ninguém, todos estamos no mesmo barco.

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