ANO: 26 | Nº: 6542

Dilce Helena Alves Aguzzi

dilcehelenapsicologa@gmail.com
Psicóloga
24/03/2020 Dilce Helena Alves Aguzzi (Opinião)

O corona e as profundezas de nós

Difícil falar sobre outro tema, bom seria abordar outras questões, mas a epidemia mundial e suas consequências nos impedem. Tudo gira em torno do vírus e suas consequências globais, locais, sociais, familiares e pessoais.
Pessoas do mundo inteiro gostariam de estar de volta a sua vida normal, ouvir e poder falar sobre outros assuntos, entretanto ainda não é possível. Temos que acompanhar as notícias, seguir normas de conduta e contingências de acordo com a magnitude do problema. Temos ainda que procurar a calma e a serenidade dentro de nós mesmos, de nossa casa, de nossos relacionamentos com o intuito de superar os desafios do confinamento e manter a sanidade para aguentar o isolamento social pelo tempo que se fizer necessário.
Situações de isolamento favorecem a identificação de pensamentos e emoções que já estavam presentes, disfarçadas, escondidas ou encobertas pela agitação da rotina incessante nos impedindo de perceber, vivenciar e compreender seus significados. As preocupações emergem com mais força e nos acordam de madrugada, pensamentos que andávamos evitando surgem sem cerimônia e desconcertantes. Tais confrontos, difíceis, dolorosos e desconfortáveis fazem parte de nossa evolução pessoal, de tempos em tempos cada pessoa por motivos internos ou externos tem alguma experiência que detona esse mecanismo de contato com o universo interno de questões pendentes, reprimidas ou mal resolvidas.
Esse encontro face a face com o obscuro de nós mesmos é temido, dolorido e ao mesmo tempo fortalecedor. Dele podemos sair mais sábios, mais calmos, mais profundos e serenos ou mais agitados, irritados, rabugentos e tendenciosos, ávidos por jogar a culpa de nossas dores nos outros. Enfrentamento de dificuldades de forma coletiva, como o coronavírus, a humanidade também já enfrentou noutras calamidades históricas. A única novidade agora talvez seja a necessidade de introversão social, parar o movimento constante rumo à superfície das coisas que tanto nos distrai de nossas inquietudes. O "corona" nos obrigou a encarar as profundezas de nós mesmos e para isso a reflexão ainda é o melhor remédio.


Pensamentos que
andávamos
evitando surgem

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