ANO: 26 | Nº: 6494

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
26/03/2020 João L. Roschildt (Opinião)

Casa, Coronavírus e roupa lavada

Na contemporaneidade, o maior teste de sobrevivência da reclusão doméstica é a família. Ainda valorizada em público e em redes sociais como o último estandarte da sacralidade terrena, sua permanência é tão fugaz quanto uma pandemia.

Em tempos de propagação do Coronavírus (Covid-19), a sociedade está sentimentalmente endêmica em suas residências. Enclausurados entre os que deveriam ser os mais próximos, os seres humanos veem-se diante da árdua tarefa de estreitar laços com aqueles que são vistos como “obrigações”. Em uma época em que todos os prazeres mundanos são encontrados fora do lar, encontrar alegrias na intimidade gera uma angústia equiparada a das velhinhas que esperam pelos seus ônibus em rodoviárias.

Se antes o retorno ao lar representava o encontro com o Paraíso na Terra, no vapor de nossas vidas a casa significa a prisão moral do indivíduo. Recomendados ou determinados a ficar em suas residências para evitar novas contaminações, boa parte dos seres humanos vislumbra um cenário apocalíptico diante de seus olhos. Afinal, o que “fazer” com os filhos? Como entreter um ser em tenra idade e que demanda atenção total? Quais atividades podem ser desenvolvidas em casa para “passar” o tempo? Será que é possível sobreviver, sem enlouquecer ou ser reduzido a “nada”, dentro da “masmorra” doméstica? Não é necessário amarrar os filhos e tapar a boca do cônjuge? E a lista de questionamentos torturantes segue seu curso com a mesma pluralidade da quantidade de famílias.

Com isso, não há descompasso maior de valores do que afirmar para um contemporâneo que o “lar é o único lugar da liberdade”, como disse Chesterton. Para os adeptos do hedonismo, do existencialismo, do relativismo ou da completa ignorância, a perspectiva de eternidade do lar é um obstáculo a fugacidade da vida. Sem a possibilidade de desfrutar as estranhas vivências do espaço público, a casa passa a ser uma conhecida jaula que confina os ânimos e vontades do animal selvagem que ali se encontra.

Quando a casa é cárcere, somos carcereiros de nós mesmos. Aquele que almeja ardorosamente que o tempo escorra pelas mãos quando está com seus filhos, cônjuges ou familiares, que se desgasta emocionalmente pensando em como não se cansar na presença das crianças ou que vislumbra uma melancolia incessante nas paredes de sua residência, é o típico exemplar desse mal-estar civilizatório “pós-moderno”.

Mesmo um ideólogo disfarçado de filósofo, como Jean-Paul Sartre, sabia que “se você sente tédio quando está sozinho é porque está em péssima companhia”. Nas famílias contemporâneas, não há maior solidão do que estar entre os seus. Reflexo da prevalência das aparências midiáticas, do “ter” antes do “ser”, dos laços afetivos serem vistos como meros contratos ou por conta de qualquer outra razão mais profunda, o fato é que lares desajustados produziram seres desajustados.

A incapacidade de encontrar felicidade interior vislumbra no lar mais uma etapa da interioridade. Dentro de uma existência insuficiente, o lar é uma extensão da insatisfação. Iludidos pela vida exterior, os primatas contemporâneos deliciam-se exclusivamente com o que é transitório. A falta de tranquilidade na exclusividade do lar é um reflexo da estupidez de nossa época. Como diria Santo Agostinho, “não há lugar para sabedoria onde não há paciência”.

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