ANO: 26 | Nº: 6527

Fernando Risch

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Escritor
27/03/2020 Fernando Risch (Opinião)

Não deveríamos mexer no time que está... empatando

No dia 27 de fevereiro, a Itália contabilizava 650 infectados e 17 mortes pelo Covid-19. Na ocasião, políticos locais criaram uma série de restrições à população para que se mantivessem em isolamento. Todas estas medidas foram derrubadas pelo Primeiro Ministro Giuseppe Conte, que inclusive criticou a suspensão de aulas em regiões sem contágio, alegando que as medidas só serviam para gerar caos.

Preocupado com a economia do país em meio à doença, na Justiça, Conte saiu vitorioso contra as restrições locais, inclusive as que previam o fechamento de bares. Três dias depois, o número de mortes dobraram. Até o momento em que este texto é redigido, a Itália já soma 7.503 mortes, passando a China. Cabe dizer que a Itália tem 60 milhões de habitantes, frente a 1,3 bilhão dos chineses.

Dia 9 de março, a Itália registrou 463 mortes e Conte voltou atrás, decretando isolamento em todo país. No último sábado, a Itália registrou 793 mortes apenas naquele dia, e o número oscila desde então diariamente. Abre aspas para Giuseppe Conte: "Estamos ficando sem tempo. É a pior crise que vivemos desde o final da Segunda Guerra Mundial".

O Brasil tem números muito parecidos com os italianos e, obviamente, é um país diferente, mas maior, muito maior, continental. Mudar a abordagem frente à crise agora seria, no mínimo, irresponsável. E é isso que faz Jair Bolsonaro, ao estimular o "isolamento vertical", em que a população segue a vida normal, apenas isolando os idosos e grupos de risco, uma estratégia defendida apenas por dois cientistas no mundo, sem aprofundamento, que não prevê o contato de jovens com idosos – pais que moram com filhos, avós que moram com netos etc – e a transmissão de pessoas assintomáticas (que tem o vírus e não sabem).

Bolsonaro contraria a Organização Mundial da Saúde, pelo menos 25 dos 27 governadores de estado, o vice-presidente, o Senado, o Congresso e o próprio Ministro da Saúde, que se negou a renunciar ao cargo e disse que não dará importância ao que diz o presidente.

Nos EUA, de onde Bolsonaro tirou a ideia do isolamento vertical, Donald Trump mudou o tom e a abordagem, com mais de mil mortes no país. Trump já conclamou o povo americano para a quarentena, além do anúncio de um pacote de 2 trilhões de dólares de estímulo à economia. Segundo estudos, se a pandemia se alastrar pelos Estados Unidos, o rombo econômico seria em torno de 60 trilhões de dólares. A perda é inevitável, resta saber de quanto será. Já tombamos, falta saber de quantos andares será a queda.

No sistema de saúde, se há uma lotação normal nos leitos, a morte de casos graves do Covid-19 é de 1 a cada 5 pacientes. Se há superlotação, a estatística é de 9 mortes a cada 10 internados. E é neste ponto que o isolamento social é tão importante. Não importa quantos se infectem, mas quando irão se infectar. Se o vírus se espalhar para um grande número de habitantes ao mesmo tempo, quando os sintomas ocorrerem e leitos forem necessários, não haverá para todos e o sistema colapsa, com alto número de mortes. É o que ocorre na Itália.

Pode ser que as coisas se sucedam diferentes aqui, pela diferença de clima, cultura, população e território. Ou pode ser que não. Pode ser que as mudanças que façamos agora, com atitudes impulsivas num senso falso de segurança, no momento que estamos estabilizando – empatando, não vencendo - essa guerra, nos faça colher arrependimento no futuro, tanto de vidas como financeiro.

A solução para uma crise como esta, definitivamente, não é o laissez faire, o deixa estar, o cada um por si. A solução é um estado forte e ativo, que tranquilize e proteja a população economicamente, mas, principalmente, sanitariamente, e não apenas tente se eximir de suas responsabilidades. Afinal de contas, esse é o papel de um governo, servir ao povo e para o povo, principalmente em crises gigantescas como esta.

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