ANO: 26 | Nº: 6589

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
09/04/2020 João L. Roschildt (Opinião)

Dissonância familiar

No campo das pequenas “desordens” mentais, um ser humano que apresenta atitudes que estão em conflito com os valores que supostamente defende, estaria incorrendo na dissonância cognitiva. Mesmo sem cair na tentação de uma simplificação barata, pode-se dizer que o fato de haver uma contradição entre ações e crenças particulares, faz com que o indivíduo crie uma cadeia de choques internos que pode gerar inúmeras angústias e sofrimentos. Em suma, é quando o sujeito deseja e faz algo que sabe que é errado.

Essa forma refinada de bestialização, afinal, fazer algo incorreto de forma “consciente”, só mostra o grau de estupidez do indivíduo, é um fenômeno que se alastra na mesma proporção do Coronavírus. E creio que tenha potencial de "letalidade" muito maior do que é propagado para aquele agente infeccioso.

Em 02/04/2020, a Gallup divulgou o resultado de uma pesquisa realizada no mês anterior com os pais de crianças que não estão mais frequentando as escolas, em razão destas se encontrarem fechadas por conta da pandemia do Covid-19. Em suma, a companhia Gallup desejava saber, na percepção dos pais, quais eram os principais sentimentos que o “confinamento” doméstico gerava em seus filhos e em suas relações familiares. Cerca de 89% dos pais de crianças abaixo de 18 anos relataram que seus filhos experimentaram “prazer” e “felicidade” durante boa parte do dia. No entanto, 65% dos genitores alegaram que seus filhos têm passado por tédio na medida que estão recebendo a educação à distância ao invés de irem à escola. Estresse, raiva, tristeza ou solidão, de acordo com os pais, representam índices abaixo dos 25%. Ora, é evidente que o lar e a presença dos pais é o último grande refúgio para seres que ainda dependem da proteção dos mais velhos. Por isso, não surpreende que quase 9 a cada 10 pais norte-americanos tenham mencionado que o prazer e a felicidade no ambiente doméstico é algo predominante neste momento de reclusão.

Todavia, na outra ponta desta relação, a percepção que os genitores têm sobre si mesmos a respeito dessa realidade social de “prisão” doméstica, é algo parcialmente chocante. Por exemplo, somente 63% dos entrevistados disseram encontrar momentos de prazer em suas casas, ao passo que 77% disseram ter algum tipo de felicidade, apesar de somente 37% declararem o sentimento de tédio. Ainda assim, 66% disseram sentir preocupação (talvez algo típico da maturidade) e 71% declararam que estar no lar com “os seus” é estressante.

Apesar da interpretação dos dados ser algo que dependeria de maiores informações (e até mesmo de respostas por parte dos filhos), algumas conclusões podem ser extraídas. Na ótica dos pais, seus filhos são muito mais “felizes” dentro do lar do que os próprios genitores. De maneira surreal, os pais têm um nível de estresse extremamente elevado em um espaço que deveria ser de harmonia e interação saudável, algo que nem de longe representa uma preocupação para os filhos.

É possível amar uma família sem que o sentimento de felicidade e prazer sejam onipresentes? O lar como local de ternura pode ser visto como um ambiente de estresse? Em tenra idade, filhos sempre idolatram seus pais. Quando a recíproca não é a mesma e os sentimentos são dúbios, a dissonância familiar já está instaurada. É uma das grandes marcas do mundo contemporâneo.

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