ANO: 26 | Nº: 6527

Fernando Risch

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Escritor
10/04/2020 Fernando Risch (Opinião)

O sapo fervido

Há uma lenda popular, oriunda sabe-se lá de onde, que diz que se você colocar um sapo em uma panela com água fervendo, o sapo imediatamente pulará e escapará da água. Porém, segundo esta lenda, se você colocar o sapo em uma panela com água na temperatura ambiente e acender o fogo, o sapo ferveria até a morte por não perceber a mudança gradual de temperatura.

Na verdade, quando a água começar a ficar insuportável, o sapo pulará, sim, por isso é uma lenda. Não há base científica que comprove tal questão na biologia. Mas essa história não deixa de ser uma boa metáfora a ser aplicada.

Veja a crise em que vivemos, por exemplo. A água é a sociedade, o sapo é o ceticismo e a temperatura é o vírus. Quanto mais quente, mais crítica a situação. Até este momento, poucos países e lideranças tiveram uma resposta imediata para com o Covid-19, sem deixar que uma crise sanitária implodisse a nação. Para todos os outros, a água teve que aquecer ao ponto de ser insuportável e fazer o sapo pular.

Neste caso, vamos adicionar uma nova variável à nossa metáfora: o arrependimento. O ceticismo para com a letalidade do vírus existe até aparecer o arrependimento, até uma liderança perceber o erro que fez, até um cidadão comum perceber o quão errado estava. Neste ponto, o sapo pula para tentar sair da panela.

Na Itália, o "Milano non si ferma" (Milão não para), encabeçado pelo prefeito da cidade, virou a seguinte declaração: "Foi um erro. Ninguém ainda havia entendido a virulência do vírus", seguida de 4,4 mil mortes àquele ponto. Hoje, são muito mais. Nos Estados Unidos, Donald Trump subestimou o vírus, até que o país começasse a empilhar corpos e se tornasse o epicentro da crise. Hoje, fala-se entre 100 e 200 mil mortes nos EUA quando a crise passar.

Coloquei-me em quarentena já há uns 20 dias. Vou ao supermercado uma vez por semana e a cada 2 ou 3 dias, saio para correr na rua sozinho, uma prática recomendada pela Organização Mundial da Saúde. O que vejo quando saio de casa é vida normal. Pessoas em grupos nas ruas, paradas em esquinas, conversando como se nada estivesse acontecendo; famílias inteiras no supermercado, pai, mãe, avó, filho, neto e cunhado fazendo compras juntos, quando só um era necessário. Há poucas luvas nas mãos e poucas máscaras aos rostos. Pelas redes sociais, vejo o mesmo em outras cidades. Em Porto Alegre, por exemplo, teve aglomeração na Orla do Guaíba, no domingo, de pessoas tomando mate.

Talvez seja isso: se a ameaça não for real o suficiente, ameaçadora o suficiente, pagaremos pra ver, até ser tarde. Estamos dentro da panela e a água está aquecendo, pouco a pouco. Ainda estamos confortáveis, a temperatura parece amena. Infelizmente, ao que tudo indica, o Brasil precisará que ela ferva ao ponto de se tornar insuportável e incontrolável. A partir daí, além do vírus, os céticos terão de lidar com o arrependimento por terem subestimado algo tão sério.

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