ANO: 26 | Nº: 6589

João L. Roschildt

joaoroschildt.jornalminuano@outlook.com
Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
16/04/2020 João L. Roschildt (Opinião)

Vibradores

O sexo vulgar dessacraliza o prazer. A precarização do erótico mostra a eterna angústia da insatisfação dos instintos. Se existe algo que não representa novidade alguma para a sociedade ocidental, é a ideia de que os seres humanos adquiriram esplendorosa liberdade sexual para sondar qualquer área do corpo. Travestida pela noção de que essa autodeterminação sobre a carne representa emancipação de retrógrados escrúpulos, os indivíduos submetem-se a tirania interna dos instintos mais baixos.

Crentes na superstição de que a soberania sobre as escolhas sexuais equivale ao pleno uso da liberdade, tais indivíduos não se cansam em alimentar a libido. Um parceiro a cada dia, relacionamentos “abertos”, múltiplos parceiros, novas experiências, inusitadas práticas e a promessa quanto mais ousado e escrachado, melhor. Com a mesma velocidade que alternam estas e outras possibilidades, menosprezam os prazeres obtidos. Seduzidos pelas peripécias sexuais, os libertinos contemporâneos ignoram que gozar a vida não se esgota no gozo.

Assim, este lúbrico pós-moderno pensa que se encontra em um estado de plena satisfação em virtude das inúmeras variedades e possibilidades existentes. Mas, privado da racionalidade, não consegue ver que sua perseguição implacável por prazeres carnais incessantes e de toda ordem só demonstra sua condição de perpétua insatisfação. Confundir a licenciosidade com a liberdade, um dos traços do mundo contemporâneo, é só uma amostra de como a casca da satisfação sexual é demasiadamente fina para esconder sua insatisfação.

E qual classe expressa melhor esta “(r)evolução” da lasciva? Ora, duvidosa seria a resposta que não mencionasse a classe “artística”. Dado o contexto moderno e a ocupação de espaço nos meios de comunicação de massa executada por este grupo, seria bastante surreal excluí-los deste palco. Ou seria um picadeiro de um circo para adultos? Só para adultos ou crianças e adolescentes também são estimulados a participar?

Em tempos de pandemia e de reclusão (forçada e institucionalizada) social, as redes sociais surgem como curiosos espaços de interação social. Logo, alguns “artistas” não perderam tempo em reforçar sua luxúria. Caso o “confinado” tenha Instagram, ele pôde acompanhar a “cantora” e “filósofa contemporânea” Valesca Popozuda, em uma “live” para maiores de 18 anos (com alguns funks “proibidões”) e que teve mais de 200 mil visualizações. Após este estrondoso sucesso, na segunda edição, a funkeira usou um pênis de borracha (popular “consolo”) como microfone. O Instagram, fiscal da moral e dos bons costumes, bloqueou novas transmissões de Valesca após isso. Como não poderia ficar atrás (sem trocadilhos) deste triunfo, a “cantora” Anitta, em “live” com Leo Picon (quem?), não perdeu tempo e mostrou sua coleção de vibradores, explicando toda a funcionalidade técnica de cada um dos “aparelhos”.

O problema não está no vibrador. Sem falsos moralismos. O mal-estar com este espetáculo horrendo está na falta de “consolo” para a ruína social que é a promessa de êxtase imediato. Ou ainda na expectativa da pronta-entrega do prazer. Quiçá, no tempo que as pessoas dedicam para aplaudir este tipo de “entretenimento” miserável. Quando os prazeres se tornar tão descartáveis quanto um pênis artificial, não há como vibrar com a natureza humana.

Deixe seu comentário abaixo

Outras edições

Carregando...