ANO: 26 | Nº: 6575

Padre Jair da Silva

pejairs@yahoo.com.br
Pároco da Catedral
20/04/2020 Padre Jair da Silva (Opinião)

A morte


As doenças, os acidentes, as guerras e a violência em nosso mundo nos lembram que a morte pode nos atingir de várias maneiras. Com a pandemia do coronavírus não é diferente, ela trouxe à tona a consciência da morte.
Há mais tempo eu partilhei aqui, nesta coluna, uma leitura que havia feito e que teria provocado em mim alguns questionamentos fundamentais sobre a existência humana. Trago novamente porque penso ser algo muito oportuno para os dias em que estamos vivendo. Trata-se de um artigo sobre uma enfermeira australiana, Bronnie Ware, que escreveu um livro original. Tendo-se dedicado a doentes terminais, colecionou suas queixas, seus arrependimentos e seus sonhos não realizados. Tinha consciência de que aquilo que foi ouvindo de uns e de outros ao longo de alguns anos era muito mais do que meros desabafos, mas ela estava, sim, diante de sentimentos profundos, de dores que machucavam, de vidas não vividas. Para que o livro não se tornasse apenas um amontoado de depoimentos, organizou-os em grandes grupos, aos quais denominou "Os cinco maiores arrependimentos à beira da morte". São eles:
1º) "Eu gostaria de ter tido a coragem de viver a vida que eu quisesse, não a vida que os outros esperavam que eu vivesse". Segundo Bronnie Ware, esse foi o arrependimento mais comum. Diante da proximidade da morte, muitos olhavam para trás e tomavam consciência do que gostariam de ter feito e não fizeram, preocupados sempre com imposições externas ou com o desejo de querer agradar. Em outras palavras, poderiam escolher para a lápide de sua sepultura a frase: "A vida que poderia ter sido e não foi".
2º) "Eu gostaria de não ter trabalhado tanto". Essa afirmação nascia especialmente da boca de homens que tinham passado a vida envolvidos pelo trabalho, pela luta para aumentar seu patrimônio ou para serem sempre mais famosos. Percebiam, de repente, que não haviam acompanhado a infância e a juventude de seus filhos, que a família tinha ficado sempre em segundo plano, embora procurassem se convencer, enquanto estavam em sua roda viva, que era para a esposa e os filhos que tudo faziam.
3º) "Eu queria ter tido a coragem de expressar meus sentimentos". Alguns se arrependiam por não terem sido capazes de expressar seu amor e seu carinho ou por não terem sido capazes de fazer elogios a quem os merecia. Outros guardavam ressentimentos antigos, fazendo de seu coração um "freezer", onde sua amargura estava congelada, sempre pronta a se manifestar. Agora, se perguntavam: "Para quê? De que adiantou isso?"
4º) "Eu gostaria de ter tido mais tempo para meus amigos". Muitos descobriram que não haviam cultivado velhas e sinceras amizades, e que não era naquela fase final da vida que iriam conseguir novos amigos.
5º) "Eu gostaria de ter-me permito ser mais feliz". O grande erro de muitas pessoas consiste em estragar a vida com mesquinharias, com insatisfações não superadas, com o fechar-se em si mesmas, num egoísmo que mata a alegria.
Estes arrependimentos são, sem dúvida, um material muito rico para nossa reflexão acerca de como fazemos nossas escolhas. Há poucos dias celebramos o mistério da paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Os textos bíblicos nos mostravam, entre outras coisas, que uma escolha foi feita: "Qual dos dois quereis que eu solte?" Eles gritaram: "Barrabás". "Que farei com Jesus, que chamam de Cristo?" Todos gritaram: "Seja crucificado!" (Mt 27,21-22). Somos livres para escolher, mas quantas escolhas erradas já fizemos ao longo da vida. Estejamos mais atentos às nossas escolhas e não as façamos movidos unicamente pelos impulsos do momento, pela miopia das nossas emoções.

Pe. Jair da Silva
pejairs@yahoo.com.br
(55) 997051832

 

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