ANO: 26 | Nº: 6589

Fernando Risch

fegrisch@gmail.com
Escritor
24/04/2020 Fernando Risch (Opinião)

Xeque-mate

Imagine, caro leitor, que existisse uma pessoa que diz combater a corrupção. Este paladino incorruptível ganha notoriedade, se alça ao mais alto dos voos e obtém sucesso. Torna-se líder da nação e promete que acabará com tudo isso que tá aí, tá ok?

Aos poucos, os esqueletos saem do armário dançando Conga, da Gretchen. No cesto de frutas, as laranjas podres começam a aparecer e já não se sabe mais quem é laranja e quem está podre. O discurso segue o mesmo, de combate à corrupção. Mas a corrupção de alguns, não de todos, porque algumas corrupções são mais corrupções que outras.

O braço direito, o magistrado incumbido da Justiça, vai empurrando com a barriga porque é cedo de mais pra pular da barca. Discute-se Coaf aqui e ali. É meu, é seu, é meu, é seu. E, no fim, ninguém é de ninguém e, ao mesmo tempo, é de todo mundo. Tudo fechadinho, com a ajuda de uma meia dúzia de cortinas de fumaça. Meninas vestem sei lá que cor, meninos brincam de Barbie, ou ao contrário. Não sei mais.

As instituições vão funcionando no toque do ameaço. Para cada crime de responsabilidade, uma nota oficial para mostrar que o sistema democrático nunca esteve tão forte. Notas oficiais tão boas que ao final da leitura não se sabe o que foi dito. Não dá pra ter veemência, senão a criança chora.

Já tivemos a plantação poluída de laranjas fantasmas e o braço paramilitar que extorque cidadãos comuns, mas nada disso é lá muita corrupção, eu acho. Tudo se tapa com uma boa polêmica. Esquecemos que isso um dia existiu porque o ministro da educação cometeu uma sequência de erros de português e dançou com um guarda-chuva dentro do próprio gabinete. Ai, que figura.

Então apareceu uma tal milícia digital, um tal gabinete do ódio, usado para destruir reputações, para manipular opinião pública, para abafar opositores, tudo na base da mentira, calúnia, difamação e outras palavras chiques que certa vez o Orestes Quércia repetiu incessantemente. Coisa de filme. Tão de filme que dizem foi até usado na eleição. Quem diria?

Mas tudo tem limite. Tem limite porque ninguém mais dá bola pra polêmica boba, nem se vier do ministro da saúde em meio a uma pandemia. E a Polícia Federal, que também não é boba - podem tentar fazê-la de boba, mas não é boba – está de olho, captou tudo, achou a fonte do problema: quem faz, quem financia e por quê disso tudo.

E esta partida de xadrez, que foi aberta com uma Ruy Lopez ousada, se defendendo com ataque, chega ao seu limite com uma defesa escocesa, forte, coesa e historicamente séria. Os cavalos da PF avançam, os bispos encurralam e o braço direito do rei, supomos que uma torre, quer abandonar a partida caso o rei não deixe o adversário revelar os segredos obscuros do jogo.

Afinal de contas, o que é combate à corrupção? Não sei mais.

Xeque-mate.

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