ANO: 26 | Nº: 6586

João L. Roschildt

joaoroschildt.jornalminuano@outlook.com
Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
01/05/2020 João L. Roschildt (Opinião)

Como é que eu fico sem sexo?

Essa é a pergunta que fascina o apetite da sociedade contemporânea. Presente na canção “Sexo!!”, no álbum homônimo (1987), da banda Ultraje a Rigor, esse questionamento resume bem o espírito de nossa época. Não que represente uma novidade nos anseios da humanidade. Muito menos que expresse uma vontade revolucionária contra tabus. Ou que a indagação, por si mesma, signifique um questionamento pecaminoso. Mas o fato é que ela se ajusta perfeitamente em uma era de excessivos direitos e reduzidas responsabilidades. Afinal, como é possível que alguém não esteja plenamente saciado no seu desejo de prazer?

Se a cada sentimento corresponde um direito, como pensa a ilustre vanguarda intelectual progressista, nada mais justo do que achar fórmulas que possam contentar tais anseios. Assim, nesse vale-tudo sexual, não há espaço para um MMA. Qualquer impedimento ou receio é sempre visto como reflexo de tempos arcaicos. Qualquer promessa de novidade é sinônimo de liberdade.

Desta forma, o indivíduo “livre” caminha sem limites na estrada do erotismo. Afogados em estímulos visuais que prometem a felicidade, os seres humanos creem que o alcance do êxtase está a um clique ou a algumas cifras. O que em partes pode ser uma verdade, haja vista que nunca foi tão fácil obter um gozo. Por outro lado, o “negócio” é pérfido: vende-se o imediatismo do prazer em troca da escravidão do corpo, do intelecto e da alma. Se é correto afirmar que “todos os animais fazem sexo, mas só os seres humanos fazem amor”, como disse Theodore Dalrymple, também é verdade que o transespecismo é preponderante em nossos orgásticos tempos.

Quando esteve na Colômbia, em 2019, para divulgar seu trabalho “musical”, a “cantora” Anitta deu uma declaração inusitada. Em um vídeo divulgado no Instagram, em meio a comentários sobre a beleza dos colombianos, ela disse em espanhol: “Porque vocês sabem, eu sempre digo, quando estou solteira, eu saio fodend* com qualquer coisa que me cruze o caminho. Homem, mulher, cachorro. Cachorro não, porque não se pode [...]”. Como a funkeira é vista com carinho pela grande mídia sua declaração não tardou em ser classificada como bem-humorada. Reparem que os cães não fazem parte de seu menu sexual só porque não podem, mas se não existissem freios jurídicos e morais...

Todavia, o ponto central não envolve os animais, mas sim o estado de hipnose libertina que rebaixa os indivíduos a um nível distinto até mesmo dos animais irracionais. Se para estes, o sexo tem uma finalidade que não se esgota no prazer, os seres “racionais” querem fazer crer que o prazer é o que dá sentido ao ato sexual. O desespero pelos excessos da liberdade acaba aprisionando o indivíduo em uma dependência dos instintos que nunca é aquietada. O fato é que não há compensação para a falta de amor. E o amor não se resume ao sexo. Aqueles que não compreendem isso podem ser equiparados a crianças que confundem seus bichinhos de pelúcia com animaizinhos reais: falta-lhes discernimento e maturidade. A diferença é que a criança ainda está em processo de desenvolvimento.

Claro que estas linhas de nada servem para mentes que olham para corpos e só imaginam as inúmeras possibilidades de deleite carnal. É como escrever para um viciado no auge de seu entorpecimento. Sem a devida desintoxicação cultural, só restará o sexo.

Deixe seu comentário abaixo

Outras edições

Carregando...