ANO: 26 | Nº: 6555

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
07/05/2020 João L. Roschildt (Opinião)

Bolinhos

Existem hábitos tão enraizados que nem mesmo o novo coronavírus consegue dissipar. É como se determinadas posturas e ações fossem intrínsecas à natureza humana de tal forma que nem uma ameaça que pode afetar a saúde do indivíduo tem a capacidade de fazer com que ele mude parcialmente seus costumes. Por vezes, julgo que essa idiota teimosia deve ter origem genética, mesmo que saiba da ignorância de tal pensamento.

Mas é óbvio que quanto mais bestializados estamos, mais tendemos a reproduzir aquilo que aprendemos. Em partes, a ignorância permite que os indivíduos responsabilizem o meio social pelos erros cometidos. Mesmo que a esperteza da burrice esteja na busca pela irresponsabilidade, o burro não deixa de ser burro.

Para tristeza dos alarmistas e pequenos ditadores travestidos de democratas, não estou a defender o isolamento horizontal, o lockdown, o uso obrigatório de máscaras nas ruas por força de decreto, a “prisão” de pessoas que se recusam a sair de praças ou alguma bipolar ingerência recomendada pela “científica” e “neutra” Organização Mundial da Saúde (OMS). Afinal, não é a Peste Negra, apesar de alguns indivíduos e autoridades apresentarem pavores dignos de filmes de terror. Talvez seja fruto de uma era de comodidades...

No entanto, não é a dose de caos social que determina o abandono da racionalidade. Ou seja, independentemente das medidas extremas que alguns governantes estejam tomando e que afetam diretamente a vida econômica das pessoas ao não permitirem o desenvolvimento das atividades que garantem os seus sustentos, não é possível deixar de olhar para a realidade sem razoabilidade.

Por exemplo, pense em uma fila no Brasil. Sem muito esforço, imagine a sua formação e composição em um centro urbano com certa abundância de pessoas. Em tempos normais, qual a distância mínima entre indivíduos? Particularmente, minhas experiências em supermercados não são das melhores, afinal, parece que atraio encostos por todos os lados. Em alguma medida exerço uma espécie de atração fatal absolutamente discreta e imperceptível, mas que sempre termina com algum carrinho, bolsa, mochila, pé ou outra parte do corpo humano (neutra em sexualidade) se encontrando com o meu habitáculo carnal. Mas vejo que isso não é um privilégio particular, pois as filas no Brasil são assim. As pessoas adoram se encostar umas nas outras como em movimentos ondulatórios. Não interessa o calor do verão ou o frio do inverno. Sempre alguém estará por perto para lhe transmitir um toque protuberante e acolhedor em alguma fila.

E de nada adianta colocar marcações no chão para indicar uma distância razoável entre as pessoas a fim de evitar contágios. Como estão “protegidas” por máscaras, elas sentem-se mais à vontade para se aproximarem. Entendo o desespero de ficar em casa por parte daqueles que não sabem o que é um lar. O que lhes resta é uma bela e calorosa fila.

Reza a lenda, que um prefeito de uma cidade na região dos pampas gaúchos disse que não queria saber de “bolinhos” de pessoas tomando cerveja em locais públicos em “sua” cidade. Aviso que elas continuarão. É um estilo de vida. É genético. Quer espalhar esse “bolinho”? Espirre próximo do “bolinho”. Imediatamente surgirá um sincero desejo de “saúde”. E mais cerveja. E no outro dia, alguns estarão na fila. A estupidez é genética.

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