ANO: 26 | Nº: 6527

José Artur Maruri

josearturmaruri@hotmail.com
Colaborador da União Espírita Bajeense bagespirita.blogspot.com.br
09/05/2020 José Artur Maruri (Opinião)

A ética da convivência: medo ou cuidado

"702. É lei da Natureza o instinto de conservação? 'Sem dúvida. Todos os seres vivos o possuem, qualquer que seja o grau de sua inteligência. Nuns, é puramente maquinal, raciocinado em outros". – Allan Kardec, O Livro dos Espíritos
Uma das questões que tem assolado a humanidade nesses dias de reclusão é a convivência.
No entanto, é preciso considerar duas questões antes de enfrentarmos o ponto acima colocado: o medo e o cuidado.
Segundo a psicanalista Simone Demolinari, em coluna publicada pelo portal "Hoje em Dia" "biologicamente, sentimos medo como reação natural de preservação da vida. Este medo que nos protege é considerado um 'medo bom', visto que a ausência dele nos deixa expostos à condição de risco. Entretanto, quando ele ocorre de forma exagerada ou irracional, pode nos paralisar, acovardar e roubar nossa liberdade de escolha".
Ela vai ainda mais longe quando o medo é questão de convivência, segundo a psicanalista "Escolher é, por vezes, um processo desconfortante, uma vez que a decisão implica numa renúncia. E nessa hora estamos sós. Amigos, cônjuge e família podem dar suas opiniões, às vezes contribuindo, outras vezes atrapalhando". Mas como ela mesma ressalta, a escolha acaba recaindo sobre nós.
A não ser que, noutro viés, estejamos numa posição de liderança. Daí, obrigatoriamente, nossas escolhas recaem sobre os liderados. Nesse sentido, o historiador Agenor de Roure, na obra "Formação Constitucional do Brasil", editada pelo Senado Federal, destaca como o medo contribuiu para a construção da primeira Constituição do Brasil, em 1824, in verbis:
"O medo governa o mundo para o bem e para o mal. O medo criou os deuses e escravizou os homens. O medo da morte, o medo do sofrimento, o medo da pobreza e o medo da miséria dirigem os homens. O medo de perder o emprego, o medo de desagradar aos eleitores, o medo de ficar sem as boas graças do governo e o medo de descer das posições agitam os homens políticos. O medo gera os atos violentos dos governos; serve de instrumento e de espantalho para os governos contra os governados; e leva o governo a ceder diante do fantasma de uma greve ou de uma revolta, justamente quando devia resistir...".
Como se pode extrair do colocado acima, o medo está intimamente ligado ao chamado instinto de conservação, no entanto, o filósofo espiritista Jerri Roberto Almeida, quando fala sobre a ética mínima para uma boa convivência, ressalta que a Lei de Conservação, aposta em "o Livro dos Espíritos" de Allan Kardec entre as leis morais, requer um olhar especial sobre a ideia de cuidado.
Por assim dizer, ao lado da Lei de Conservação temos o medo e o cuidado. O filósofo espiritista coloca que "o cuidado é a força que opõe à entropia, o desgaste. No campo da convivência, o cuidado é uma atitude de amorosidade consigo e com o outro, e que viabiliza a conservação. Cuidar expressa a ideia de zelo, desvelo, bom trato, solicitude. O poeta latino Horário (65-8 a.C.) considerava-o permanente companheiro do ser humano".
Um exemplo máximo de cuidado, segundo Jerri Almeida, está no amor de mãe, já que representa uma maravilhosa manifestação do cuidado essencial. As homenageadas do final de semana têm, em sua essência, a sublime atitude do cuidado pelo filho, regado pela ternura incondicional, oportunidade em que oferecem lições de devotamento que dignificam a natureza humana.
Então, podemos observar que o medo e o cuidado estão intrínsecos à Lei de Conservação, sendo que o próprio princípio da conservação representa a sustentação da convivialidade.
Enfim, agora, mais do que nunca, já que estamos adeptos de uma fé raciocinada, podemos nos deixar guiar pelo medo ou pelo cuidado, mas, parafraseando o filósofo supracitado, não podemos negar que os relacionamentos, a partir de agora, precisam ser alimentados e realimentados com base numa ética para a convivência e as nossas decisões terão implicações na humanidade, na sensibilidade, na solidariedade, na fraternidade, na cordialidade, valores que nos conectam à espiritualidade.
"O Espiritismo se propõe a uma releitura da vida sob o prisma da imortalidade da alma e da pluralidade das existências – etapas biológicas de aprendizado – onde o espírito humano marcha rumo à sua infinitude. Ness sentido, a vida, em todas as suas dimensões e manifestações (espiritual, material, familiar, social, cultural, ecológica...), se reveste de singular importância para a plenitude do ser". – Jerri Roberto Almeida
(Referências: https://www.hojeemdia.com.br/opini%C3%A3o/colunas/simone-demolinari-1.334203/filosofia-do-medo-1.412405. Jerri Roberto Santos de Almeida. Filosofia da Convivência à luz do espiritismo. Porto Alegre, RS : AGE, 2006. Allan Kardec. O Livro dos Espíritos. FEB Editora. Cap. 5)

José Artur M. Maruri dos Santos
Colaborador da S.E. Léon Denis e União Espírita Bajeense

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