ANO: 26 | Nº: 6527

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
09/05/2020 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Bagé e Aparício Saraiva: a carta que não chegou

Os conterrâneos sabem da existência de uma fronteira seca e aberta com os uruguaios. Alguns A chamam de "fronteira linha", como Ieda Gutfreind: ou "fronteira manejada, diz Mariana Thompson Flores; "fronteira zona", para Chesneaux; Dobke fala em "fronteira indivíduo" que o escritor Gustavo Figueira Trindade adota personificando o espaço em Joca Tavares. Atrevi-me em falar em "fronteira osmótica", no viés das aulas de botânica que ministrava, para significar a "permeabilidade recíproca" que há entre Bagé e Aceguá. Sempre houve fluxo constante de fatos e pessoas, de caudilhos e militantes, daqui para lá ou inverso. Bento Gonçalves, Joca, Silveira Martins, os irmãos Gumercindo e Aparício Saravia confirmam a hipótese. Daí insistir com os pesquisadores locais para que organize entidade binacional de estudos históricos a fim de para explorar esse raro fenômeno.
Francisco Caneda Saraiva nasceu em Lavras do Sul em 1822. Filho de Francisco Amaral Saraiva e Maria Angélica Caneda. Tendo parentes no Uruguai e preocupado com os efeitos da Revolução Farroupilha tenta se transferir, inicialmente para Santa Vitória e depois para Santa Clara do Olimar, onde se instala, iniciando a trajetória que o transforma em grande proprietário de terras no Uruguai. Vem a Arroio Grande, onde se diz que "arrestou" a jovem Pulpícia da Rosa, de 17 anos. Francisco vira "Saravia" e Pulpícia, "Propícia". O primeiro e único filho brasileiro foi Gumercindo, 1852. Seguem-se, a razão de um por ano, Basilício, 1853, Antônio Florício, o "Chiquito", em 1854; Aparício, em 1857. Logo depois casaram e nascem José,1858, Camilo, 1860, Francisco, em 1862; em 1864, a primeira filha Juana Norberta e depois Amélia, 1866, Mariano, em 1868, Timoteo, 1871; Teresa, 1874 e Sensata, em 1877, ou seja, treze filhos, em 25 anos de união, "os valentes saíram à mãe; os que além disso são inteligentes, vá saber-se a quem", dizia Dom Chico com vaidade e falsa modéstia. Depois do falecimento de dona Propícia, em 1880, passa a viver com dona Servanda Ramírez, com quem gera mais seis filhos, curiosamente dois deles com os mesmos nomes dos filhos matrimoniais, José e Teresa, mais Enrique e Gilberto, estes reconhecidos no testamento lavrado em Melo em 1880. Vieram depois Bráulio e Manuel. Dom Chico falece em 19 de novembro de 1893, na estância "Coxilha Grande", aos 71 anos. Gumercindo e Aparício choraram a morte do pai lutando na peleja entre federalistas e republicanos. Mandaram procurações para serem representados na etapa judicial, firmado em Curitiba, aonde estavam. No testamento, além de dispor sobre seus bens, Francisco pedia aos filhos seguissem unidos apesar das diferenças políticas que os poderia afastar. O que cumpriram. Quando iam para as guerras os remanescentes cuidavam de suas famílias e propriedades. Aparício, blanco e Basilício e José eram colorados, assim adversários. Há um exemplo disso.
Quando Chiquito morre no Arbolito, convoca-se um encontro da família na estância "La Ternera", cuja casa e aberturas eram pintadas de vermelho e pertencia a José, o mais rico de todos, casado com Jacinta Corrêa. O primeiro a chegar a cavalo é Basilício, embora com escolta. Ao ingressar deixa o facão e o revólver com a cunhada. E chegam os demais. Aparício é o último, cumprimenta a viúva de Chiquito e lhe diz que ela e filhos deviam estar orgulhosos porque ele "entregou a vida pela pátria". José o abraça e depois, de modo mais largo, também Basilício. E aos demais. Os irmãos se reúnem, em separado das mulheres. Depois de horas José aparece e comunica que a viúva "contará com todo o apoio para levar uma vida sem angústias ou sobressaltos". E decidem que a educação dos sobrinhos e seu bem-estar seriam responsabilidade de todos os presentes dali por diante. Inicialmente José fica com encargo de administrar todas as estâncias do irmão finado, até que Basilício retorne ao lar e assuma tais tarefas. E para a viúva Ciríaca que permita aos filhos virem morar ali, onde havia escola para mais de cem crianças. E finaliza dizendo: "Fiéis ao mandato de nossos pais, haveremos de acompanhar e guiar pelo caminho do bem aos filhos de nosso irmão morto. Tenham a certeza que nenhum Saravia, por mais diferenças políticas que haja, nunca sofrerá penúria ou humilhação enquanto viva outro Saravia para ajuda-lo". Durante a última guerra uruguaia, finda com a Paz de Aceguá em 15 de outubro de 1904, Aparício e Basilício estavam em lados opostos. O que não os impede durante a luta de trocar altivas e carinhosas cartas. Após a vitória, Basilício é beneficiado com importante cargo na administração colorada. Revelou-se ele com a mesma habilidade de Dom Chico para os negócios, multiplicando a fortuna. E teve vinte filhos, em dois matrimônios, assim um a mais que seu pai...
O patrimônio deixado por Francisco Saraiva era exponencial: onze estâncias, nove no Uruguai e duas no Brasil. Os campos somavam cinquenta mil hectares, além uma multidão de gado e ovinos. O lado brasileiro ficou para Gumercindo. Os "filhos naturais" não foram esquecidos. Para Aparício toca "El Cordobés", que, em parte, já era seu por morte da mãe. O nome se deve ao arroio que atravessas as terras e nasce na Coxilha Grande, em Durazno e finda no Rio Negro, separando aquele departamento de Cerro Largo. El Cordobés pertencera a Manuel Rollano, filho de espanhóis, simpático à invasão luso-brasileiro de 1816-1822, por isso alcaide de Melo, por designação de Manuel Lecor. Seu mandato dura tanto quanto o da Cisplatina. Melo tinha três mil e setecentos habitantes, sendo mil e quatrocentos brancos e mil e trezentos negros, distribuídos por em trezentas e noventa e cinco moradias. Em 1833 Rollano vende a propriedade para a brasileira Vitória Faustina Corrêa. Com o falecimento desta os campos passam para a filha Isabel Faustina Corrêa e logo à neta Carolina Corrêa Lopes. Em 1872 a propriedade é comprada por Francisco Saraiva, negócio fechado em Pelotas. Depois Aparício adquire mais uma área em Caraguatá e a estância "La Coronilla", em Rivera.
El Cordobés seria o reino de Cândida. Filha de Feliciano Faustino Díaz de Oliveira, ou "Caxias" e de Marculina de Souza Soares, ambos brasileiros. Ela de Jaguarão e ele dos vales do Ponche Verde. Chegam ao Uruguai na mesma época que Francisco Saraiva, e talvez pela mesma razão (Farrapos). Casam em Melo. Chico e Propícia são testemunhas da boda, ocorrida em 1856. O primeiro filho é Estêvao. Em 29 de agosto de 1859 nasce Cândida. Vivem em uma estância de muitas quadras na costa do arroio Tarariras (Traíras), não muito distante dos campos de Dom Chico, em Cerro Largo. Embora empreendedor Faustino era adepto do baralho, o que na viuvez o leva à falência. Cândida foi bem, educada na campanha, nas letras e na religião. Retraída, viaja com a mãe até Melo algumas vezes ou estância de Dom Chico para algum batizado; assim Aparício e Cândida se conheciam desde meninos. Adolescentes Aparício e Gumercindo foram estudar em Montevidéu, mas por pouco. Quando eclode a Revolução de 1870 Gumercindo, Chiquito e Aparício mergulham na pugna. Nos encontros posteriores da família, Marculina e Chiquito observam que Aparício e Cândida estavam enamorados. Surge a Revolução Tricolor – referente à bandeira dos Trinta e Três Orientais- contra Lorenzo Latorre e entre os rebeldes novamente o trio dos Saravia. Conta a lenda que, após o regresso e rendendo tributo a uma tradição, Aparício rapta Cândida numa tarde do verão de 1876 e a leva para El Cordobés, a poucas léguas dos Díaz. Parece que com a bênção de Feliciano, embora a fama de mulherengo de Aparício. Com a primeira gravidez resolveram casar na Capela de Santa Clara del Olimar, depois da licença do pároco de Cerro Largo. Foram testemunhas Chiquito, Maria da Costa e Rodolfo Fernández. Em 1878 nasce Aparício, depois Nepomuceno Honorato, Exaltación, Ramón, Mauro e Villanueva. Em 1893, como sabido, Aparício está com Gumercindo na Guerra Civil de 1893. De retorno ao Uruguai, morto Gumercindo, chefia Revolução Branca ou das Lanças, em 1897, que tem este nome pelo uso desta arma, especialidade pessoal de Aparício. Dela resultam dois governos: em Montevidéu, Cuesta, colorado; em El Cordobés, Aparício, blanco.
No começo daquele ano Cândida, filhos e mulheres se mudam para Bagé, onde Aparício havia arrendado a chácara "Gentil", no Piraí para ali instalar seu quartel-general, com objetivo de organizar a revolução e armar-se, sem colocar em perigo a família. (segue)

 

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