ANO: 26 | Nº: 6589

Fernando Risch

fegrisch@gmail.com
Escritor
09/05/2020 Fernando Risch (Opinião)

Flerte

O flerte acabou. Antes, era só uma paquera, uma questão de amor incompreendido, dita em sílabas diretas ou indiretas, em gritos histéricos dos tresloucados ou no cochichar dos covardes, fingindo não ser verdade, mas a expressar um amor sincero, próximo ao incompreendido. O flerte acabou mesmo.

O rei ficou nu. E quando pensamos que o rei não poderia ficar mais nu, ele foi lá e ficou mais nu ainda. Ficou tão nu, mas tão nu, que agora se lê abertamente seus pensamentos, sua alma, e conseguimos assimilar sem mais bocas miúdas a vontade explícita do pelado. Estais avisados!, grita o monarca para a multidão, como se eu, logo eu, não havia dito isso antes, com um sonoro "Eu avisei!" sequencial, ao ruir do castelo. Mas não me ofendo com este roubo de propriedade intelectual, não sou o único dono desta frase.

A canalhice chegou ao seu ápice, refugiada sob a guisa do falso patriotismo. Porque um bom canalha não é um bom canalha se não se apropriar do que é de todos e dizer que é apenas seu, como os verdes, os amarelos e por que não também os azuis. Estes não me pertencem mais, pelo menos é o que aparenta.

Agora, as viúvas de coturnos limpos com leucócitos e hemácias dançam debaixo de sol. Beijam a Morte na boca e a pedem em casamento, num matrimônio que só não é mais perfeito por não ter sido tirado de uma ficção.

Desafiam, como a última cartada de um escroque corrupto, as instituições que empardam seu poder. O objetivo é simples: subjugá-las e ter tudo pra si, no núcleo central de uma autocracia, como notórios vagabundos sádicos e genocidas preguiçosos outrora tiveram ao curso da história.

Ao cidadão comum, de qualquer vertente, cabe apenas uma única coisa, a ser feita de olhos fechados, cego, sem importar nada nem ninguém, a não ser isso, sem importar quem vai e quem fica, quem dança ou quem segue. Ao cidadão comum, autoproclamado de bem ou não, só resta, acima de tudo e de todos, e apenas isso, defender a democracia.

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