ANO: 26 | Nº: 6544
09/05/2020 Opinião

O Duque da Senzala

Foto: Reprodução JM

por Rodrigo Tavares

O FestFronteira Literária se caracteriza por trazer a Bagé escritores nacionais e promover o encontro e o intercâmbio de conhecimentos com os escritores bajeenses, dos quais apresentamos as obras.

O livro dessa semana é "O Duque da Senzala", lançado pela Editora Bestiário, do escritor Valdomiro Martins. Formado em Letras, em 2007 participou da oficina de Criação Literária de Luiz Antonio de Assis Brasil. Em seguida, estreou na literatura com o livro de contos "Guerrilha e Solidão", pela Editora Literalis. Participou, ainda de algumas antologias e, também, lançou outros livros independentes. Atualmente, Martins é doutorando em Escrita Criativa, pela PUC/RS.
Um ponto a ser destacado é que Valdomiro Martins é um dos autores precursores do atual movimento que valoriza a literatura negra, pois já em 2007 escreveu literatura com o ponto de vista do negro na Revolução Farroupilha. Pode-se afirmar que Martins, à semelhança do que Leticia Wierzchowski fez com sua "A casa das sete mulheres", entregou aos leitores um novo ponto de vista sobre uma revolução que já foi tão bem retratada – e isso é um feito e tanto.
Na literatura brasileira clássica, durante muito tempo os negros foram vistos como objetos, uma vez que retratados em situação de escravidão, sem qualquer preocupação dos autores em desenvolver tais personagens de forma satisfatória. Em se tratando de literatura rio-grandense, mais importante ainda abordar a temática negra, pois apesar de uma rica história oral, temos pouca literatura de relevância nessa área. Já em "Guerrilha e Solidão", como bem aponta Ana Paula Fontoura Pinto, em sua monografia de conclusão de curso (Unipampa/2013), Martins "explora os pampas com um ponto de vista nada comum na literatura sul rio-grandense e, por isso mesmo, se apresenta surpreendente. Nesta obra, o autor coloca o negro como protagonista em todos os contos, algo inovador para a literatura brasileira e para a produção sul-rio-grandense em que é pouco vista a presença do mesmo, desta forma, em narrativas literárias. São histórias de pessoas que possuem defeitos, vícios e virtudes, como qualquer humano".
E justamente aí está um dos grandes acertos de Martins: o autor cria personagens cheios de camadas e conflitos, extremamente humanos, e não está preocupado em criar personas politicamente corretas, que se prestaria apenas àqueles leitores mais preocupados com questões extraliterárias do que com a ficção propriamente dita.
E é sob essa ótica que chegamos ao seu novo lançamento, "O Duque da Senzala". Segundo a sinopse oficial, o livro narra a história de Ábedu Lecur, um ex-escravo vendido pela mãe que busca espaço no meio social e político no Rio Grande do Sul da segunda metade de século XIX. Quando rebenta a revolução de 1893, Ábedu Lecur vê nessa guerra a oportunidade que esperava para obter sua ascensão, mas para isso precisava realizar um feito quase impossível: matar o homem mais procurado dessa revolta. Até que conhece Egas Faraó, ex-cativo campeiro, veterano da guerra do Paraguai e que vive isolado com a família. A partir de então, inicia-se uma jornada pelos confins do pampa numa caçada aos limites da razão. "O Duque da Senzala" é um livro que tem todos os elementos da ficção de primeira qualidade e, ainda, as características dos romances históricos, que tanto agradam o público do Rio Grande do Sul.
Valdomiro Martins é um dos autores do que venho denominando de literatura regional contemporânea, que vem a produzir uma importante literatura universal, mas com os pés fincados em solo gaúcho. Conheçam a obra desse importante escritor bajeense.

 

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