ANO: 26 | Nº: 6543
12/05/2020 Opinião

A mãe de quarentena

Costumo lembrar o poema de Mário de Andrade sobre a mãe, pois "ela prende os erros da gente" e ninguém mais nos aguenta como essa mulher "escondendo a cara entre os joelhos dela". Nos tempos em que tudo aproxima, a data significaria convívio; apoteose do afeto; mimos joviais. Engraçado, apesar do progresso estamos cada vez mais distantes. Pela intolerância e pelo ódio; pelo desapreço e indiferença; pela economia e o desamor. Agora toda vaidade humana se ajoelha ante uma feroz molécula pontuda. Não é curioso que o invisível submeta a quase divindade? A trágica lição para lembrar quão nu segue o humano?
Há os que não têm mães vivas; e há mães que sepultaram suas eternas crianças. Que mergulham nas profundezas da saudade; nas lágrimas do consolo ou da revolta. Na foto do álbum, uma voz surda. Naquele dia.
Penso na moça grávida que sonha com o parto festivo, o cartão na porta; a visita dos parentes, a correntinha de presente, agora a solidão branca; o sorriso sugando máscaras; a precária companhia, mas a felicidade da vitória; o cumprimento do pacto natural, o percurso da vida. Recordo a mãe abandonada; a prisioneira; a que em hospital luta contra a dor; a que sofre as dores do engodo; a dos fundões da campanha; a que não acha água para dar o primeiro banho; a que não têm as moedas para jogar na bacia.
Mas lembro a mãe em quarentena, peculiar mulher da modernidade a quem restam beijos numa tela; que no pátio conversa pelas frinchas da cerca; ao pé da escada com dois metros de anseios; pela porta do edifício; janela; que estende as mãos para o abraço vazio; a quem só resta a tecla virtual. O almoço abstrato. Um presente timbrado.
Na esperança de um "novo normal", algo não mudará. A virgindade e o perpétuo amor das mães.

 

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