ANO: 26 | Nº: 6525

José Carlos Teixeira Giorgis

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Desembargador aposentado e escritor
16/05/2020 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Bagé e Aparício Saravia: a carta que não chegou (2)


1. A historiadora Ana Luiza Reckziegel, explana com precisão as relações diplomáticas entre Brasil e Uruguai nos eventos de 1893, aqui, e 1897, no lado oriental, demonstrando que o governo do Rio Grande do Sul, neste período, conduziu com autonomia suas ações com o país vizinho, até ignorando as orientações oficiais, postura que denomina como "diplomacia marginal" percebível nos movimentos revolucionários indicados. A instabilidade política no Rio Grande do Sul repercutiu no Uruguai não apenas pela situação limítrofe, mas pelo envolvimento direto dos orientais na contenda gaúcha, como a presença de Gumercindo e Aparício Saravia nas hostes federalistas. Esse "trânsito espontâneo", de ligações comuns, de interação nos assuntos daqui e de lá, ostentada pelos homens da região nos ajudam a compreender as imbricações destes caudilhos nas querelas políticas dos dois territórios. A afirmação da professora passofundense constrói mais um pilar à ideia que se vem sugerindo, como outros, sobre a existência de uma "fronteira osmótica" e permeável entre as linhas abstratas de Bagé e Aceguá. Acentua a historiadora, ainda, que após o golpe de Castilhos em 1892, aludindo à aliança entre ele e Floriano, a imprensa uruguaia assevera haver em ambos "um abraço" para oprimir o povo rio-grandense. As perseguições, prisões e assassinatos foram os métodos usados pelos castilhistas para aniquilação do inimigo; acuados, os federalistas não tiveram como resistir e, como solução momentânea, emigraram para o Uruguai, pois se tornou impossível manter-se no estado, tal a fúria dos castilhista contra seus opositores. A resistência era muito difícil ainda mais com o apoio recebido pelas tropas federais. A sanha da perseguição republicana, diz Reckziegel, foi responsável pelo imenso êxodo da oposição rumo ao Uruguai entre junho de 1892 e fevereiro de 1893. Na República Oriental, os federalistas mantinham boas relações tanto com o partido "blanco" quanto com os "colorados", tanto que muitos deles possuíam propriedades naquele país (como Joca Tavares e os familiares de João Francisco Pereira de Souza; também o general Antônio de Sousa Neto que, segundo autores, chega a criar quase um "trilho" pelos campos, usado para suas visitas periódicas a parentes no Jaguarão-Chico). No departamento norte do Uruguai predominavam as famílias brasileiras com um montante significativo de investimentos que perfazia 60% do total contra modestos 30% dos uruguaios. Segundo informes haveriam 15.000 emigrados, que nos departamentos de Trinta e Três e Cerro Largo superavam a 2.000. Quando essa saída aconteceu, em companhia dos armamentos, Castilhos diversas vezes solicitou ao governo uruguaio o "internamento" dos federalistas e seu desarmamento, preocupado com possível incidente na fronteira, pela exaltação dos ânimos causados por Rafael Cabeda e Ismael Soares, mas as providências uruguaias foram escassas, embora até criada uma comissão ministerial para averiguar as denúncias na fronteira que concluiu, em busca da neutralidade, pela inexistência de "grupos ou armas". Em certo momento Fernando Abbot dirige-se a Floriano Peixoto alegando, "sem levantar suspeitas", que o embaixador brasileiro Alvim era amigo íntimo de Gaspar Silveira Martins, que se encontrava seguidamente, no Hotel Nova Barcelona com o presidente uruguaio Herrera y Obes Era o panorama até o fim da Revolução de 1893. Essa década de noventa se revela, assim, pródiga em conflitos políticos na abrangência da fronteira sul do Brasil. E mesmo com a pacificação de 1895 acontecimentos no Uruguai demonstrariam que o ímbricamento político entre as duas regiões" permanecia ativo, embora com desdobramentos peculiares. Entre elas, a estratégia castilhista para desmantelar a rede de apoio aos federalistas, resumindo-se em franquear colaboração com a causa "blanca", transformando seus antigos inimigos em oportunos aliados, o que daria o domínio da fronteira norte uruguaia aos seguidores de Aparício Saravia. Tanto que no final da Guerra de 1904, Aparício teve apoio de João Francisco Pereira, a Hiena do Caty, morrendo inclusive na estância deste, para onde fora levado gravemente ferido. Seu irmão Gumercindo fora morto pelos republicanos castilhistas.
2. A volta de Aparício ao Uruguai provoca grande expectativa e visitas constantes de caudilhos blancos ao mesmo, solicitando que liderasse a próxima revolução armada, entendendo não haver outra saída para o restabelecimento das liberdades democráticas a não ser a revolução popular nacionalista. A constatação vigente era que uma minoria ilustrada, vinculada aos capitais estrangeiros, impulsionava o governo a uma política de sacrifícios para o povo, estando o presidente Idiarte Borda atrelado a esse grupo, que fizera grandes concessões em transações financeiras verdadeiramente escandalosas, segundo ainda narra Reckziegel. Já em Montevidéu se conhecia dos preparativos bélicos que se faziam na Campanha, sob o comando de Aparício Saravia que inicia o movimento em 23 de novembro de 189, quando se aproximavam as eleições uruguaias daquele ano. Aparício ruma em direção a sua estância em Coronilla, perto de Rivera, distante seis ou sete léguas da fronteira, onde imaginava encontrar uma numerosa reunião que havia, contudo, já sido dissolvida pela polícia. Aos poucos à marcha se juntam grupos uruguaios de diversos departamentos e até de Buenos Aires. Aparício se ubica próximo a El Cordobés, limitando-se aos departamentos de Durazno e Cerro Largo e ao norte, próximo de Caraguatá e Coronilla, em Tacuarembó. Essa marcha, embora fracassada, representa ser necessário um aporte maior de recursos humanos e financeiros e protestar contra a autenticidade das eleições. Quando começa 1897 Aparício está no Rio Grande do Sul e espalhara o boato que seria um futuro fazendeiro rio-grandense, supondo-se que assim o fazia para atrair a ajuda dos federalistas gaúchos no suporte de armamentos. Tem contatos com Torquato Severo, seu amigo de refrega. Retorna ao Uruguai, mas consciente de que precisa radicar-se no Rio Grande. Tem em Abelardo Márquez, correligionário de Rivera, amigo nos recolhimentos anteriores nos potreiros de Ana Corrêa, uma personagem que será muito importante, como se verá. Como temia novo fracasso da revolução Aparício vem a Bagé e pede a Márquez que faça chegar a Castilhos seu afastamento dos federalistas, recado que também chega a João Francisco, o que acalmará os republicanos gaúchos em caso de que tenha de homiziar-se no Brasil. Isso depois que Torquato não consegue os armamentos e Aparício não atende os apelos de Estácio Azambuja, que também estaria "espionado e ameaçado de internamento". Isso faz com que os castilhistas façam "vistas grossas" aos preparativos bélicos dos blancos, permitindo que Aparício, "de sua chácara em Bagé" comandasse todos os aprestos da rebelião que desencadeou em 1897, como refere Costa Franco. Antes ocorrera uma viagem de Chiquito Saravia, acompanhado de seus filhos Santos e Mariano, partindo dos campos de Ana Corrêa, próximo da fronteira, até o porto do Rio Grande, de onde seguiram para Buenos Aires para se entrevistar com o coronel José Nuñez, a quem transmitiu a necessidade de 700 homens, com "uma arma, um poncho, um cobertor de lã e um freio" com o que "teriam a vitória". O comando da Junta de Guerra indica Aparício como Chefe do Exército Revolucionário. O plano consistia na invasão por Colônia, Paissandu e Aceguá.
No retorno de Chiquito, segundo Washington Abadie, depois do aparente sucesso das notícias trazidas da Argentina e as gestões diplomática de Abelardo Márquez perante as autoridades brasileiras Aparício adquire em Bagé a "chácara Gentil, em Piraí, perto de Bagé, que será a residência dos irmãos Saravia, de seus filhos e alguns companheiros", tendo comprado também " um campo de doma, com a finalidade de ter prontos bons cavalos para as ações bélicas futuras". Ali, consoante narraria Nepomuceno Saravia, seu irmão, "as condições de vida eram realmente duras para os 60 homens que habitavam a chácara. Existia uma formidável invasão de gafanhotos: matávamos os insetos, inclusive o General que nos pagava um mil réis diários. Passamos privações e suportamos uma grande pobreza", tendo sido ajudados pelo dinheiro de Juan Muñoz; nossos bens no Uruguai estavam confiscados. O capataz do General em La Coronilla era Maximiano da Luz, colorado, quem, por meio do General Escobar, vendeu o rebanho e levou o dinheiro ao Brasil. Eram umas cinco mil reses, vendidas a quatro pesos cada; com essa quantia compramos as armas" Aparício se movimentava com frequência da "Chácara à fazenda e da fazenda a Bagé, onde Abdón Arostégui o atualiza nas mudanças acontecidas no Comité de Guerra (continua).

Leituras: 1. Ana Luiza Setti Reckziegel. "Rio Grande do Sul e Uruguai: os bastidores da diplomacia marginal, 1893-1897", Cadernos do CHDD. Fundação Alexandre de Gusmão. Centro de História e Documentação. Brasília: A Fundação, 2007. 2. Washington Reyes Abadie. "Crónica de Aparício Saravia", tomo I. Montevidéu: Talleres Gráficos de Barreiro y Ramos Ltda., 1989; 3. Nepomuceno Saravia Garcia. "Memorias de Aparício Saravia". Montevidéu: Medina, 1956. 4. Sérgio da Costa Franco. " Júlio de Castilhos e sua época". 2e. Porto Alegre: Editora da Universidade/UFRGS, 1988

 

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