ANO: 26 | Nº: 6527
21/05/2020 Esportes

Os reflexos da pandemia para formação de jogadores na categoria de base

Foto: Yuri Cougo Dias

Clubes se preparavam para disputa do estadual
Clubes se preparavam para disputa do estadual

Se nos clubes profissionais, os impactos do coronavírus podem levar a rumos incertos, as dúvidas sobre o futuro ascendem ainda mais em relação às categorias de base. Sem competições nesta temporada, o desenvolvimento de um atleta passa a ficar comprometido, o que pode trazer sérias consequências lá na frente. E a categoria mais afetada, nessa história, é a juvenil. Para contextualizar o panorama local, o Jornal MINUANO entrevistou os dois treinadores que são responsáveis pela base de Bagé e Guarany. Ambos apontaram que tipos de reflexos são ocasionados, aos meninos, com a parada do futebol.

“A geração 2003 está em risco”, aponta Totonho

Técnico da sub-17 do Bagé, Totonho Padilha diz estar preocupado com o futuro da geração de jovens nascidos em 2003, ou seja, que completam ou já completaram 17 anos, em 2020. Ele explica o motivo: “Era o ano que esse atleta teria espaço para jogar. Em 2019, eu tinha somente três jogadores nascidos em 2003 no time titular. E isso também acontece com as demais equipes. Como essa temporada seria a última dele como juvenil, iria estourar. Em 2021, ele corre o risco de subir para o júnior ‘cru’, pois, nos seus dois anos de juvenil, praticamente não jogou. E quando tu chega no júnior, dificilmente tu joga regularmente no primeiro ano. Então, os impactos para o profissional é mais na parte financeira; para a base, é no desenvolvimento do atleta”, argumenta.
Devido à situação, Totonho afirma que há grandes riscos de que, daqui uns anos, haja uma grande ausência de jogadores profissionais com destaque, que tenham nascido em 2003. “O grande prejuízo, mesmo, é para os meninos. Essa realidade não envolve só Bagé, Guarany. Atletas de Flamengo, Inter, Santos, Fluminense também estão passando por isso. Podemos, daqui uns anos, ter muito poucos jogadores nascidos em 2003 nos plantéis profissionais, pois eles foram prejudicados por não terem passado por todas as etapas. E fico pena dos guris, pois tinha alguns que me acompanharam todo o ano passado, sabendo que iriam ser reserva. Daí, chega o ano do cara e ele não pode jogar”, lamenta.
O juvenil jalde-negro iniciou a temporada, em janeiro, com o terceiro lugar na Copa Teutônia. A equipe teve três vitórias, dois empates e uma derrota. O atacante Jean Lima encerrou como artilheiro da competição, com seis gols marcados. A partir de abril, o Bagé participaria do Gauchão sub-17. Para custear as despesas geradas pelo estadual, como viagens e taxa de arbitragem, jogadores e comissão técnica promoveram uma rifa. No entanto, a movimento cessou. “As vendas estavam ótimas, porém, com essas restrições, não posso pedir para que os meninos saíam para vender. Porém, se o profissional não for jogador, pode muito bem a diretoria priorizar o financiamento da categoria de base. Já temos um dinheiro acumulado com a rifa. O resto teria como agilizarmos”, ressalta Totonho.
Os treinamentos foram suspensos no dia 14 de março. Na estrutura que estava em vigor, os atletas de fora ficavam alojados no estádio Pedra Moura, onde tinham direito a café da manhã e janta. O almoço ficava a cargo de um restaurante local. Contudo, devido aos impactos econômicos com a pandemia, Totonho teme não dispor, futuramente, dessa estrutura. “O restaurante que eles comiam antes, por exemplo, não podemos garantir que ainda seguirão servindo. É uma cadeia na sociedade, em que um setor influencia o outro”, ressalta.
Quanto à possibilidade do Gauchão juvenil ocorrer, Totonho afirma que tem mantido contato direto com a Federação Gaúcha de Futebol (FGF). Em âmbito nacional, sugere-se que os atletas nascidos em 2003 possam jogar, pelo juvenil, até o primeiro semestre de 2021. Assim, abre a possibilidade de ocorrer dois estaduais no ano. Na primeira parte, no caso do juvenil, com atletas 2003 e 2004. E no segundo semestre, já relativo a 2021, com jogadores nascidos em 2004 a 2005. Nesse caso, solucionaria o problema com a “geração 2003”. No entanto, a ideia ainda é somente uma sugestão que circula nos bastidores.
Conforme definido no regulamento, o Bagé estava no grupo C, ao lado de Guarany, Progresso, Brasil de Pelotas, Inter de Santa Maria, São Gabriel e Uruguaiana. Dos sete, quatro se classificavam para a segunda fase, e estes mesmos formatariam um novo grupo. Depois, passariam dois para as oitavas de final.

“Que os clubes do interior olhem mais para base”, destaca Renato

Se por um lado, Totonho ia para a segunda temporada no comando do Bagé, Renato Martins iniciava um projeto no Guarany. Ex-zagueiro e, atualmente, estudante de Educação Física na Urcamp, ele iniciou, em janeiro, o trabalho de treinador das categorias de base alvirrubra. De saída, participou, no começo do ano, com as categorias sub-12 e sub-15, da Copa Cidade Verde, competição realizada em Três Coroas. A partir de abril, os planos consistiam em ingressar no Gauchão sub-15 e sub-17. No entanto, a sequência de treinamentos foi interrompida com a pandemia.
Até a data em que foi decretado o distanciamento social, Martins afirma que as perspectivas para a temporada eram positivas. Além de ter se inscrito nos estaduais infantil e juvenil, estava prevista a visita do treinador da sub-13 do Corinthians. Em termos de estrutura, também se discutia, junto a diretoria, um planejamento a médio e longo prazo, por meio de uma parceria com a Urcamp. “O Antônio Sobrinho, coordenador do curso da Educação Física, já tinha visitado nosso projeto. Mas a parceria também envolveria outros cursos, como Agronomia, Psicologia, Nutrição. Até com o pessoal da Arquitetura tínhamos reunião marcada”, relata.
No entanto, a ideia é que o projeto seja mantido após a pandemia. A filosofia de Martins é tentar estabelecer, com o tempo, uma relação mais próxima entre base e profissional, de modo que a formação do atleta já seja feita conforme às necessidades do time principal. “Converso muito com o Cleo e o Tato. Nós dependemos do Guarany, pois qual é o motivo de ter um trabalho de categoria de base? Para que o profissional seja autossustentável, de modo que possamos subir, no mínimo, de três a quatro jogadores por ano. Só que para isso, o time principal tem que estar funcionando. E isso leva tempo, é um trabalho a longo prazo”, enfatiza.
Na concepção do treinador, a base depende do profissional também no aspecto financeiro. “O projeto vai ser retomado, sim. Claro, voltaremos com mais dificuldades técnicas e físicas. Estávamos fechando dois meses de trabalho direto, contando com a nossa ida a Três Coroas. Agora, disputaríamos os estaduais. Creio que dependemos do retorno da Divisão de Acesso, pois, mesmo que liberem futebol de base, ele leva pouco público; o que leva é o profissional. Lamento, pois os meninos estavam empolgados. Dois ou três iriam ter oportunidade de treinar com o profissional, sendo que um já teve. Mesmo que eles estejam treinando em separado, não é a mesma coisa, pois não se adquire ritmo de jogo e de treino. E quando isso normalizar, as coisas vão acontecer muito rápido, terão que acelerar os jogos. Teremos que estar o mais preparado possível”, destaca.
Com a dificuldade financeira enfrentada pelos clubes, Martins torce para que a pandemia sirva para que as direções acreditem mais no investimento de categorias de base. “Que seja uma oportunidade, principalmente no interior, para que olhem mais para a base. Eles não têm a mesma quantidade de sócios e patrocinadores que os grandes. Então, a base pode ser uma fonte de receita, com formação de atletas. Se não vier a jogar pelo profissional do Guarany, ele estará preparado para ir para outro time”, finaliza.

Os relatos de atletas juvenis

Meio-campista/extrema do Bagé, Felipe Silva Duflexu, 17 anos, é um caso de quem teria mais oportunidades no estadual deste ano. Natural da Rainha da Fronteira, chegou ao clube em 2019. Antes, já havia atuado com Totonho, na Chape Bagé. “Ficamos tristes, até porque seria o ano que teríamos mais oportunidades para mostrar nosso trabalho e conseguir crescer mais no futebol, até mesmo quem sabe, com uma oportunidade no profissional. Sigo trabalhando de casa, pois não dá para perder o ritmo, até porque é meu último ano categoria, portanto, temos que estar preparado para quando os jogos voltarem. Mas o nosso time é muito unido, o que ajuda bastante. Sempre estamos apoiando e incentivando uns aos outros”, relata.
A mesma situação passa o meia/extrema direita, também jalde-negro, Alisson da Rosa, de 17 anos. Natural de Lajeado, chegou ao Bagé em 2020, na participação da Copa Teutônia. Antes, também atuou pelo Lajeadense. “Por causa da pandemia, voltei para minha cidade, pois paralisou tudo. Isso prejudica muito no aprendizado, por ser cobrado dentro dos treinos, sempre em busca da melhora. Estou sentindo um vazio, até por ser nosso último ano. Mas mesmo assim, não perdendo o foco, treinando em casa. E se Deus quiser vai tudo voltar ao normal e logo vamos estar de novo nos gramados”, conclui.

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