ANO: 26 | Nº: 6525

Luiz Fernando Mainardi

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Deputado Estadual
21/05/2020 Luiz Fernando Mainardi (Opinião)

Que tragédia de presidente

Cada dia que passa nesses meses de pandemia, aumentamos nossa tristeza e indignação com a conduta de quem deveria ser o principal líder político do Brasil. Bolsonaro não passa uma semana sem "botar os pés pelas mãos", criando tantos embaraços para o país que estamos sofrendo preconceito em muitas nações vizinhas ao Brasil, cujos cidadãos enxergam nos brasileiros potenciais vetores de contaminação por Covid e fatores de desestruturação das suas estratégias específicas de afastamento social, que, como podemos ver, têm tido efeitos muito positivos para o enfrentamento da pandemia.

Além de um ativismo irracional, no limite do absurdo – como a obsessão em receitar um tipo de remédio cujas pesquisas indicam que além de não fazer efeito positivo pode matar pessoas por conta da gravidade de seus efeitos colaterais –, de uma tendência à geração reiterada de crises políticas com base em razões totalmente antirrepublicanas – como foi a crise com um ministro da Justiça apenas para trocar o superintendente da Polícia Federal de seu estado para proteger seus familiares de investigações em curso –, o presidente peca também por aquilo que ele não faz.

Desde o início da crise, cuja gravidade tem sido mostrada nas telas de televisão e nas páginas dos jornais de todo o país e comprovada pela realidade das mortes em milhares, a exaustão dos sistemas estaduais de saúde, as repercussões na economia, com perda de renda, receita e postos de trabalho, o presidente jamais se dispôs a dialogar com os líderes dos outros entes federativos. Ora, apenas um governante que não entenda bulhufas da estrutura do Estado brasileiro pode pensar que seria capaz de dirigir o país sem um diálogo permanente e sistemático com governadores e prefeitos das grandes cidades brasileiras.

Pois a escolha do presidente, desde o início, foi a total interdição do diálogo, incentivando, ao contrário, permanentes conflitos, diretos e indiretos, chegando a usar a expressão "agora é guerra" em uma reunião com empresários quando se referiu à relação com governadores e prefeitos que defendem regras restritivas de mobilidade para o combate à pandemia. Percebe-se aí uma diferença fundamental com governantes como os da Argentina (centro-esquerda), Uruguai (direita) e Paraguai (centro), que mantém o diálogo com os governos regionais e locais como um elemento central de suas estratégias de gestão da crise. E, certamente, este é uma conduta que também está fazendo a diferença nos resultados que esses países estão tendo, muito superiores aos do Brasil.

Nosso presidente, infelizmente, também demonstra não ter qualquer empatia com o seu povo. Além de defender uma política econômica absurdamente irresponsável com os destinos da economia nacional, deixando-a na mão de um banqueiro cego em relação às demandas do povo e obsessivo em destruir o legado de Estado que as gerações anteriores de estadistas nos deixaram, faz vistas cegas às necessidades da população brasileira frente aos efeitos da pandemia. Vejam, foi o Congresso brasileiro, e não o Executivo, que formulou e aprovou a proposta de ajuda emergencial para os mais pobres. Isso foi aprovado por ampla maioria nas duas casas legislativas, mas até agora mais de nove milhões de brasileiros elegíveis, incluindo mães chefes de família, continuam sem ter acesso ao auxílio. Chamados de invisíveis pelos gestores federais, essas pessoas, como sabemos, existem e vivem em nossas cidades, em nossos bairros, em nossas ruas, virando-se como podem para sobreviver em tempos normais e necessitando urgentemente de apoio estatal para enfrentar a necessidade de manter o afastamento social. Ao contrário, a estratégia do governo vai na direção oposta, baseando-se sempre no princípio preconceituoso de que todos estão em busca de alguma vantagem frente ao Estado.

Também os pequenos negócios vivem essa realidade. Dos R$ 40 bilhões que foram, em tese, disponibilizados para linhas de créditos que permitissem a esses microempreendedores enfrentarem a diminuição da demanda por seus serviços, apenas R$ 1,6 bi foram efetivamente disponibilizados nestes 60 dias de pandemia. Sobre isso, nenhuma palavra do presidente, nenhuma ação, nenhuma modesta preocupação expressada em suas redes sociais. Aqui, como se sabe, não é uma conduta apenas baseada em convicções ideológicas. Muitos governos de direita protegeram seus pequenos empresários na crise, com linhas de crédito, auxílio em dinheiro, proteção dos postos de trabalho, etc. No Brasil, o presidente é tão omisso em relação a isso que sequer deve conhecer os números que esses pequenos negócios envolvem.

A necessidade de Bolsonaro sair, portanto, não está relacionado apenas ao que ele faz, mas também ao que ele não faz e, já está demonstrado, é incapaz de fazer: pensar no seu povo e na sua nação. O presidente que temos só é capaz de pensar em sua família. E sua família, como todos sabem, tem muitas razões para precisar da sua proteção. Ou o Brasil derrota Bolsonaro, ou Bolsonaro vai derrotar o Brasil. Impeachment Já!

Líder da bancada do PT na ALRS

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