ANO: 26 | Nº: 6525

José Carlos Teixeira Giorgis

jgiorgis@terra.com.br
Desembargador aposentado e escritor
23/05/2020 José Carlos Teixeira Giorgis (Opinião)

Bagé e Aparício Saravia: a carta que não chegou (3)

Chácara "Gentil", no Piraí.

Quando o Aparício retorna ao Uruguai, depois da Revolução Federalista, e tenta cumprir a rotina em sua estância, logo é instado por seus partidários a liderar um movimento contra o governo de Idiarte Borda. Viaja para Dom Pedrito para verificar o estado das armas deixadas em Alegrete e conversar com Torquato Severo; e depois começar tratativas com Júlio de Castilhos. Depois de viajar a El Cordobés, Aparício fica uns três meses ou quatro meses com seu sogro, no Ponche Verde. De volta, promove a reunião de líderes blancos, criando o "Clube Gumercindo Saraiva". Nesta reunião dona Cândida, que liderava uma comissão de mulheres, entrega a ele uma bandeira "que não estava banhada em ouro sobre seda com outras", mas com brisas de glória, lutando pela liberdade da República. O movimento de 1896 não tem êxito, mas fortalece a liderança de Aparício e a unidade partidária em seu torno.

Depois da viagem de Chiquito a Buenos Aires, já narrada, e em sua volta é adquirida a " Chácara Gentil", situada no Piraí "perto de Bagé, que será a residência dos irmãos Saravia, de seus filhos e alguns companheiros". Como já visto, Aparício compra outro campo, destinado à doma. A chácara, segundo Abadie, "estava a umas poucas quadras de Bagé e a fazenda bastante mais distante. Ali se traziam armas da revolução federalista, a que haviam escondidos "pelas dúvidas". Também chegavam armas do Caty, onde estavam os irmãos João Francisco e Ignácio Mena, que se somavam às compradas a "soldados do regimento" que as furtavam e à noite se aproximavam do acampamento para negociá-las. E que Aparício se movimentava da "chácara para a fazenda e da fazenda a Bagé", onde se encontrava com Abelardo Márquez, que vinha de Rivera, e com Abdón Arostegui, que o colocava a par da situação uruguaia. Nepomuceno conta que dois meses depois de se instalarem na Chácara (e mal, tanto que o "tio Camilo dormia no galinheiro") se mudaram para "outra chácara maior, na estância do Borba, um fazendeiro, companheiro de 93"; e de onde mantinham contato com "Carlos Alberto, intendente de Bagé".

Aqui haverá um equívoco, pois nesta época era intendente, com mandato prorrogado em vista de 93, o Cel. Antonio Xavier de Azambuja, que em 2 de abril de 1897 passaria o governo ao eleito José Octávio Gonçalves. Nem mesmo no Conselho Municipal há nome similar. Possivelmente Nepomuceno esteja nominado algum dirigente distrital, se tal havia.

Essa é uma das perplexidades que despertam os pesquisadores: onde ficava a Chácara "Gentil", pois vasto é o Piraí. E a outra chácara, talvez parte da fazenda de um "Borba", companheiro federalista"? A "fazenda", a que Abadie e Nepomuceno referem, possivelmente seja a propriedade de Aparício no Uruguai, a estância "Caraguatá", no departamento de Rivera, não muito distante de Vichadero e pertencente hoje a um descendente do General. Imagina-se que se situe na região fronteira com o Uruguai, Bagé, Dom Pedrito, Ponche Verde.... Buscas feitas no registro imobiliário em nome de Aparício até agora restaram sem sucesso. Não se descarta o alvitre de um historiador de que a chácara fosse uma fração do campo de Joaquim da Silva Tavares, Barão de Santa Tecla, irmão de Joca Tavares, este amigo de Aparício, proprietário na região. Também há dúvidas se Aparício era dono ou simplesmente arrendatário, como expõe Diego Fischer. São dúvidas a aclarar.

Casa em Bagé.

Se as interrogações se mantém quando à propriedade rural onde se acoitaram as tropas de Aparício Saravia em Bagé, dúvidas não persistem quanto à permanência de sua família na cidade. Na biografia de Cândida Diáz de Saravia o historiador uruguaio Diego Fischer anota que nos princípios de 1897, "Cândida, seus filhos e as mulheres que os atendiam se mudaram para a localidade brasileira de Bagé. Ali Aparício tinha arrendado uma chácara e instalado seu quartel general. Seu objetivo era fixar-se no Brasil, não apenas para organizar a revolução e armar-se, como também para pôr em segurança sua família ". Cândida trouxe, além de um baú com roupas também uma imagem da Virgem de Montserrat, de que era devota, um pequeno nicho de madeira com um Cristo que tinha o Espírito Santo desenhado no peito, missal, rosário. Outros baús transportavam as vestes de Aparício e dos filhos.

Logo que chega manda comprar fazendas no comércio de Bagé e de Jaguarão, e lã para tecer, pondo-se a trabalhar com suas servidoras Celina, Amanda e Clemência que passam cortando e fabricando ponchos, camisetas e bombachas. Cândida manobrava bem a máquina de costura e em poucas semanas já haviam dezenas e dezenas de abrigos. Em 1º de março de 1897 Aparício e os filhos maiores, dos arredores da chácara, com 200 homens com lanças e mauser, se preparam para dar início a mais uma "patriada". Em casa, Cândida, Exaltación, Ramón, Villanueva e Mauro fazem fila para a despedida. Aparício recomenda aos filhos que cuidem e obedeçam à mãe, abraçando a cada um. Cândida beija e entrega uma carta ao filho Aparício, que a guarda no "forro del sombrero". O mesmo com Nepomuceno. E com seu marido, a terceira carta. Em 5 de março Aparício ingressa no Uruguai por Aceguá.

A casa que foi habitada pelos Saravia em Bagé fica na Rua Marcílio Dias nº 1592, esquina Hipólito Ribeiro, hoje moradia da professora Elza D' Athayde, eis que oriunda da herança de Manoel Rodrigues d'Athayde, fazendeiro, industrialista e vereador no passado de Bagé. As primeiras pistas surgiram com informações de que se situaria na Rua Hipólito Ribeiro, o que fora confirmado pelo historiador Cláudio Lemieszek. Recentemente o historiador Cássio Gomes Lopes, que é ilustrado garimpeiro de fatos da memória local revela a existência de uma carta de Cândida Diáz Saravia, dirigida ao senhor José de Quadros, de Dom Pedrito e com laços com a família d'Athayde, no seguinte teor, já adaptada a ortografia:

" Bagé, 1º de junho de 1904. Ilmo. Sr. José de Quadros. Tendo transferido minha residência para uma outra casa, cumpre o grato dever de agradecer-lhe o serviço que me prestou facultando-me por alguns meses a sua, à rua Marcílio Dias e recusando-se a receber o respectivo aluguel. Por essa extremada gentileza confesso-me sumamente agradecida e envio-lhe por esta carta meu reconhecimento. Sem mais, ofereço-lhe os meus préstimos e subscrevo-me com estima e consideração. D V. mercê atenta veneradora e (ilegível). Cândida Diáz de Saravia".

Como os Saravias aqui chegaram em 1897 e o documento é de setembro de 1904, poucos meses antes da morte de Aparício na batalha de Massoler, resta indagar onde moraram entre 1987 e 1904.... Na chácara? Na fazenda? Mais uma indagação a resolver (continua)

--------------------------------------------------------------------

A publicação destes artigos tem suscitado agradáveis manifestações tanto pelos que desconheciam essa fase da história de Bagé; pelo contato com descendentes de Aparício aqui residentes; pela emulação a outros pesquisadores e curiosos. Na publicação digital, além destas, sou grato ao culto historiador Dr. Sérgio Canhada que dá conhecimento da genealogia de Francisco Saraiva, estabelecida por Carlos Rheingantz, ao estudar a trajetória dos açorianos, onde consta haver Don Chico – que não teria o sobrenome Caneda- haver nascido no Passo do Marmeleiro, hoje Cerrito, e não em Lavras do Sul, como aqui sustentado. Eis aí mais uma outra linha de investigação que devo perseguir, instigado pela reconhecida autoridade do genealogista e sugestão do talentoso leitor.

Leituras: 1. Washington Reyes Abadie. "Crónica de Aparício Saravia", tomo I. Montevidéu: Talleres Gráficos de Barreiro y Ramos Ltda., 1989; 2. Nepomuceno Saravia Garcia. "Memorias de Aparício Saravia". Montevidéu: Medina, 1956; 3. Diego Fischer. "Doña Cándida Saravia. El Remanso de Aparício ". Montevidéu: Penguin Randon House Grupo Editorial S.A., 2018. 4. Tarcísio Antonio Costa Taborda. "Governos e Governantes de Bajé". Bajé: Museu Dom Diogo de Souza, 1966.

Deixe seu comentário abaixo

Mais notícias da edição

Outras edições

Carregando...