ANO: 26 | Nº: 6525

Fernando Risch

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Escritor
23/05/2020 Fernando Risch (Opinião)

Haia

Haia é uma bonita cidade na Holanda, tem cerca de 489 mil habitantes e é a sede do governo holandês, assim como das casas legislativas, do judiciário e residência do rei. A cidade possui diversas indústrias do ramo siderúrgico, farmacêutico, eletrônico e alimentício, e certamente mais uma quantidade de outras coisas que eu não sei.

Den Haag, o nome de Haia no bom e velho neerlandês, assim como Nuremberg, já recebeu diversos julgamentos de cunho internacional, isso porque Haia foi brindada com a sede do Tribunal Internacional de Justiça, também conhecido como Tribunal de Haia.

Para os incautos na arte do direito internacional, assim como eu, e não sabem como este tribunal se originou, eu, como simulacro de portador do saber jurídico, explico: entre 20 de novembro de 1945 e 1º de outubro de 1946, um grupo de alemães, ou pelo menos os que restaram deles, foram julgados na cidade de Nuremberg, na Alemanha por crimes contra a humanidade.

A partir deste ocorrido, um tanto de improviso, no susto, para se antever de situações de exceção como aquelas, criou-se um tribunal internacional para que aqueles tipos de crimes, especialmente os deliberados contra a vida humana, tivessem o curso de seus julgamentos em um local específico, e assim Haia, a bela cidade dos nobres Países Baixos, fora escolhida. O por que desta escolha? Não sei, mas o fizeram e isto pouco importa no momento.

O que importa mesmo, mesmo, é que ele existe, o Tribunal de Haia, pronto para julgar aqueles que, por ação ou omissão, ferirem a humanidade de forma vil, pronto para pôr sob à luz da lei aqueles que, frente à completa devastação de vidas, riram; aqueles que tiveram tudo em mãos para atenuar a catástrofe e a agravaram, por simples e pura maldade ou ignorância. Ou os dois.

O Brasil passou os 20 mil mortos pelo Covid-19 na última quinta-feira. Demoramos 3 meses para contabilizar 10 mil vítimas e 12 dias para alcançarmos 20 mil. Os 30 mil virão e virão mais rápido, assim como os 40 mil... 50 mil. O curioso nisto tudo é que o Brasil não tem um Ministro da Saúde. Aliás, demitiu dois seguidos e em tempo recorde, porque eles estavam tentando fazer o certo e salvar vidas. Hoje, interino na pasta, está um militar que não é médico.

Mas tudo bem, isso tudo vai passar um dia, a pandemia, a tristeza, os que comandam e os que são comandados, os fieis e os abnegados. A memória das vítimas, a saudade, isso não passará, estará presente para sempre, assim como o Tribunal de Haia, que estará lá, no mesmo lugar, na belíssima Den Haag, com suas siderúrgicas e demais indústrias, com a sede do governo holandês, com as casas legislativas, o judiciário e o rei Guilherme.

Estará lá, firme em sua estrutura de pedra, cimento e integridade moral, pronto para julgar, assim como aqueles em Nuremberg, todo criminoso que se opôs à vida humana, na vilania que nem um roteiro ficcional ousaria pensar, e permitiu um genocídio de inocentes.

O momento chegará. Com juros.

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