ANO: 26 | Nº: 6542

João L. Roschildt

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Advogado e professor do curso de Direito da Urcamp
28/05/2020 João L. Roschildt (Opinião)

Concursada

No mundo contemporâneo, uma das coisas mais complexas da vida é achar um sentido para a existência humana. Com a queda ininterrupta de todos os pilares civilizatórios que ofertaram algum significado profundo aos seres humanos, os indivíduos encontram-se órfãos e à deriva. Certa feita, Oscar Wilde disse: “viver é a coisa mais rara no mundo. A maioria das pessoas existe, e isso é tudo”. Nada mais sábio, atual e cruel, afinal, uma vida necessita de um firme propósito, enquanto para uma existência, qualquer caminho serve.

Um exercício pouco saudável para a estabilidade racional de um indivíduo é a observação silenciosa da estúpida existência alheia. Creio que também seja bastante prejudicial para a harmonia emocional, dado que dificilmente alguém permanece imperturbável diante da imbecilidade de outrem. Nessa avalanche de bestialidade, algo que a nossa época produz com excelência, qualquer estoico ficaria paranoico.

Nestes dias de Covid-19, em que embonecados prefeitos e assépticos governadores impedem os cidadãos de trabalhar, monitoram seus passos e estabelecem “toques de recolher”, fica difícil observar o comportamento humano, ainda mais por trás de máscaras. Neste caso, o interesse em “bisbilhotar” ganha força no ambiente da internet.

Em uma incursão existencial (ou seja, sem rumo definido) por uma destas redes de (in)sociabilidade tribal-virtual, deparei-me com um conteúdo patrocinado. Com fotos muito bem produzidas e que sugeriam sucesso profissional e financeiro, duas jovens faziam propaganda de uma “live” que iriam realizar. Uma delas, aparentando ser um pouco mais madura, apresentava-se como advogada. Já a outra, identificava-se como “concursada”. E assim, com essa “naturalidade”, elas iriam conversar sobre estas duas “carreiras”.

Ora, todos sabem que o brasileiro é um povo bastante criativo. Mas tenho dificuldades cognitivas em imaginar como alguém se atribui o título de “concursada”. Mesmo com a ignorância que paira sobre a minha cabeça, conheço a figura do “concurseiro” no ambiente jurídico. É aquele indivíduo que, via de regra, aceita qualquer atividade no Estado, desde que lhe dê estabilidade, um polpudo “salário” no final do mês e a segurança de uma bela aposentadoria. Quem discordar destas afirmações fará um gasto desnecessário de emoções frente à realidade.

Após ver e rever aquela propaganda continuei atônito com o termo “concursada”. Pensei sobre o que faz uma “concursada”, como é sua atividade estatal, como é a progressão de carreira e finalizei refletindo sobre o status social dessa classe social. Sim! É uma classe social refinada, quase uma brazilian high society, com títulos nobiliárquicos, árvore hierárquica bastante delineada, repleta de “garantias” (nome pomposo para privilégios), e que se difere do populacho, ou seja, do restante da população brasileira. Ou alguém duvida do gozo mental quando um membro desta classe brada “sou concursado” em um ambiente social?

O fato é que “concurseiros” e “concursados” são predominantes nos cursos de Direito. Suas mentalidades de roletas-russas que atiram para todos os lados estão em perfeita sintonia com nosso modelo cultural que gestou o patrimonialismo e pariu o corporativismo. Estratificados socialmente pela ideia de que qualquer coisa serve, os “concursados” são existências que vivem do Estado.

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